
Caro, literalmente caro, doutor,
Será que você pensa em mim tanto quanto penso em você? Será que de repente no meio de alguma alegria sua lhe vêm à mente as palavras que lhe falei e você desaba como eu desabo? Claro que não. Pouco provável que você se lembre de mim enquanto toma seu café da manhã e de repente começa a chorar. Ok, posso até vir à sua lembrança vez ou outra, mas impossível minhas palavras terem causado a você o mínimo do que as suas causaram em mim. Você sabia com que tipo de personalidade estava lidando. Claro que ninguém é um diagnóstico. As pessoas têm suas peculiaridades. Os pacientes têm seus pontos mais frágeis. Não sabia? Bem, então você não seria um bom profissional, o que no fundo eu não acredito. Eu creio que naquela hora, naquele momento, você deixou alguma figura de autoridade ‘ralhar’ comigo usando seus lábios enquanto suas mãos passeavam insistentes por seu cabelo a lá Fábio Jr (que depois daquele dia, perdeu todo o charme, diga-se de passagem).
Eu até tentei avisar, entre lágrimas ainda contidas e incrédulas:
- Você sabe o que está fazendo comigo, né?
- Não! Você está fazendo isso com você mesma!
E continuou o sermão sobre como mantenho meus pais sob o que você JULGOU um regime de terror: porque minha mãe ligava a todo instante a você contando meus problemas, perguntando sobre os medicamentos e, nas horas de emergência, quando acontecia algo grave, ela até ousou uma vez ou outra em ligar de madrugada. Mas por madrugada vamos tomar os horários de por volta da meia-noite ou sete da manhã. Regime de terror…me senti o próprio DOI CODI ou a GESTAPO. Quanto à minha mãe ligar o tempo inteiro: ALELUIA QUE CHEGAMOS NESSA FASE! Porque antes ela tinha vergonha de incomodar os médicos, não sabia que certas atitudes estão ligadas ao diagnósticos que vocês, psiquiatras, nos dão. Afinal, o paciente sai do consultório tomando umas quatro drogas que agem no cérebro, então é porque HÁ UM DIAGNÓSTICO, NÃO É? Mas, quando o psiquiatra se transforma em terapeuta, senta no seu sofazinho e se põe a escutar, basta o paciente num descuido, declarar “sim, sei que minha bipolaridade tem tudo a ver com isso, blabla”, aí, OPA!, aí NÃO SOMOS UM DIAGNÓSTICO.
- Tente pensar por que VOCÊ age assim, Juliana, e não porque uma borderline age assim.
Eu entendo o ponto de vocês. Mas parem de nos tratar como idiotas, nos entupindo de remédios e depois agindo como se aquilo tudo fosse chiclete. Sou a Maria, sou a Juliana, sou a Carolina, sou a borderline, sou a depressiva, sou a melancólica, sou intensa, sou divertida, etc, etc, etc, sabe-se lá se sou bipolar (vocês não se decidem, meus amigos doutores!).
Já fui também Zoloft, Lexapro, Depakote, Rivotril, Efexor, Frontal, Oxcarbazepina, Lamitor.
Hoje sou Cymbalta. Hoje sou Topiramato. Hoje sou Wellbutrin. Hoje sou Lexotan. (amigos leitores, com todo o respeito AMO vocês, mas dispenso conselhos sobre a minha medicação atual, passada ou futura, ok?! Terapias alternativas, shiatsu, meditação, tudo isso podem me indicar que ouvirei com respeito, mas sobre medicação não, tá?)
Pois bem, minha mãe telefonava para você sim, doutor, porque olha, 500 reais por semana, acho que ela tem direito de telefonar se a filha dela estiver se debulhando em lágrimas sem motivo ou com um medo inexplicável de sair de casa.
Então naquele dia você resolveu bancar o disciplinador. Disse que mesmo com TUDO O que eu fazia, eu ganhava o que quisesse dos meus pais. OI? Eu só sofria. Eu não saía de casa. Eu não fazia nada. E minhas ações eram REAÇÕES da minha dor interna. Dor interna essa que naquele final de tarde você não estava com vontade de tratar. Sim, provavelmente eu ganho TUDO dos meus pais porque eu os penduro no pau-de-arara até eles me darem. Caro Sinhô Seu Dotô, meus pais me dão o que eles querem e podem dar. E dariam mesmo se eu fosse, sei lá, a Beyoncé! Você afirmou algo DESCONHECENDO TOTALMENTE a dinâmica da minha casa.
Falando em desconhecer a dinâmica da minha casa, quem foi mesmo que disse que seria muito difícil eu estabelecer um contato mais aberto com meu pai? Que eu deveria parar de tentar, pois isso só me causaria frustração?
E quando eu, tão desesperançada, tão ferida e tendo ferido tanto a quem amo, falei que do jeito que eu ia era mais fácil estar a sete palmos do chão do que realizando meu sonho em algum lugar, você concordou. Concordou com palavras, com a cabeça, com o gestual inteiro. Concordou com o corpo inteiro que seria mais fácil eu estar a sete palmos do chão.
Bom, eu não estou. Mesmo assim você disse que meu comportamento estava sendo essencialmente suicida e que não poderia mais me tratar. (Gente, juro pra vocês, sempre fui uma paciente boazinha e ponderada, nunca apontei uma faca pra nenhum terapeuta ou coisa parecida!) É… Você, caro psiquiatra tão recomendado na nossa cidade por ser um bom profissional (mas, vou lhe contar um segredo: também por ser bonitinho), você disse que NÃO PODERIA MAIS ME TRATAR POIS EU ESTAVA TENDO UM COMPORTAMENTO SUICIDA. Eu não sei quantas vezes terei que repetir isso para entrar na minha cabeça. Imagina o meu espanto: para onde vão as pessoas suicidas? Para o psiquiatra! Imagina o meu espanto: você não reconheceu que eu estava fazendo alarde, mesmo que inconscientemente para chamar a atenção, e que NÃO, EU NÃO ME MATARIA!
NÃO ME MATARIA TENDO PUBLICADO UM ÚNICO LIVRO, NÉ? NÃO PRA MATAR MINHA MÃE JUNTO! NÃO POR UM MONTE DE MOTIVOS.
Às vezes a gente arranha as paredes, doutor, mas a gente já sabe que de dentro delas não sai sangue. Me matar e perder a chance de estar cuidando da gatinha que apareceu no meu portão? Me matar e perder a oportunidade de ouvir Ray Charles cantando Mess Around, como estou fazendo agora? Você só me conhecia há 2 meses para prever que eu iria tirar minha vida ou para achar que ameaçar não mais me tratar iria surtir algum efeito positivo.
Como se não bastasse, você foi magistral ao afirmar que eu deveria sentir culpa pelo que eu fiz (deixo claro aqui que não matei, não roubei, não sequestrei, não torturei). Um terapeuta, um TERAPEUTA, MEU DEUS, DIZENDO:
- SIM, VOCÊ DEVE SENTIR CULPA!
Completando com:
- Você precisa se arrepender.
Erro duplo já que a culpa já é um dos piores monstros que carrego e ouvir alguém em quem eu confio, com quem vou buscar ajuda sem censuras e julgamentos, afirmando para eu me culpar foi AARRGGGHHH (como posso colocar em palavras?) BIZARRO. Em segundo lugar culpa e arrependimento são sentimentos tão distintos…
Segue aqui dois textos bem legais sobre a culpa e o sentimento de auto-punição a que ela pode levar:
Auto-estima: a diferença entre culpa e responsabilidade
Sentimento de culpa leva à auto-punição
A principal e mais grave punição para quem cometeu uma culpa está em sentir-se culpado.
(Sêneca)
Já ARREPENDIMENTO:
Do grego μεταμέλεια – Metanóia (Meta=Mudança, Nóia=Mente), arrependimento quer dizer Mudança de Mentalidade.
Na origem da palavra, arrependimento quer dizer mudança de atitude, ou seja, atitude contrária, ou oposta, àquela tomada anteriormente.
Nem precisa ilustrar muito a diferença entre os dois né?
Mas algo que eu não posso ilustrar, nem descrever é a dor de se sentir traída por uma pessoa que estava ali para entender TUDO, TU-DO (tudo bem, é um profissional). E, claro, se houvesse alguma atitude mais drástica a ser tomada depois, que fosse tomada, mas depois.
Não dá pra ilustrar a dor no peito de quando aquele seu amigo/confessor, aquela pessoa em quem você confia, muda suas feições. É visível a mudança e a dor é física, daquelas que a mocinha de novela mexicano faz um OH! e prende a respiração, sabem? É, eles não inventaram isso aí do nada! Sabe o que é mais humilhante? Não são as coisas super íntimas num sentido sexual ou sentimental que a gente conta, não são as coisas “adultas”. Foi aquela sua palavra boba, aquela sua invejinha, aquela obsessão no “jeito” do outro… São aquelas coisas do tipo “aí fulano disse assim, aí eu peguei e fiz assim, aí eu fiz de propósito mesmo só pra provocar, aí eu vou contar tudo mesmo e não quero nem saber”. São as criancices confiadas aos doutores da mente? Alma? Psiquê?
Fiquei pensando se o tempo todo, nas outras sessões, você estava me julgando uma patricinha mimada? Uma riquinha? Uma intelectual da depressão? Uma diva obcecada? Uma aterrorizadora de pais? Hehehehe Essa foi a melhor.
Doeu pra caramba. Agora chega. Ainda dói um pouco, mas eu tento não pensar.
E por que o desabafo tinha que ser por aqui, na frente de todo mundo? Porque sim, uai! Estamos na década de 10 do século XXI. Se posso tornar uma coisa pública, por que vou mantê-la privada?

