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No free walk

Persigo a paz, mas ela não está comigo e eu nem sempre estou com ela. Uma paz que foge, sai correndo quando me vê chegar. Tudo me engole. Engole minha vida, meu sopro de vida, meu ânimo, minhas palavras. Lá fora o menino canta e isso me esmaga. O menino canta sempre a mesma música e, apesar de gostar dela, hoje ela me é insuportável. Olho para a esteira de caminhada (aquela que me propus a usar e não usei) e lá está escrito Free Walk 117. E o sete se transforma num ponto de interrogação. Uma leve fração de segundos e vejo o número transmutado em minha dor. Minha dor é um ponto de interrogação. Até quando? Quantas vezes mais levantarei só para cair? Quantas vezes mais desabarei? Bipolaridade? Não sei. A nova doutora só reiterou o que havia dito anteriormente: borderline. Borderline. Borderline. Living in the edge. Na borda, na linha, sempre na corda bamba. Balançando, balançando, prestes a cair o tempo todo, de um lado para o outro, sem cessar. Náuseas. Incertezas. É possível saber quando estarei pendendo? Quando estarei me segurando com uma só mão porque escorreguei quase que de forma irremediável? Uma montanha russa que dura um dia inteiro, uma semana, um mês, uma vida. Talvez por isso eu sempre tenha considerado montanhas russas uma violência sem tamanho. Todas as vezes em que tentei, me senti violentada. Não preciso de mais uma coisa que me tire o controle do pescoço, que me faça subir sem saber o que virá depois. Pior: esperando a queda. Já vivo esperando a queda, não preciso de um brinquedo para tornar real a instabilidade do meu ser. Ela vem. Não porque eu espere ou deseje. Esse é o papel dela: me fazer cair vertiginosamente, sem ter como parar, apenas segurando o cinto de segurança, paliativo do desespero.

 

Diva no Divã da Depressão

Caro, literalmente caro, doutor,

Será que você pensa em mim tanto quanto penso em você? Será que de repente no meio de alguma alegria sua lhe vêm à mente as palavras que lhe falei e você desaba como eu desabo? Claro que não. Pouco provável que você se lembre de mim enquanto toma seu café da manhã e de repente começa a chorar. Ok, posso até vir à sua lembrança vez ou outra, mas impossível minhas palavras terem causado a você o mínimo do que as suas causaram em mim. Você sabia com que tipo de personalidade estava lidando. Claro que ninguém é um diagnóstico. As pessoas têm suas peculiaridades. Os pacientes têm seus pontos mais frágeis. Não sabia? Bem, então você não seria um bom profissional, o que no fundo eu não acredito. Eu creio que naquela hora, naquele momento, você deixou alguma figura de autoridade ‘ralhar’ comigo usando seus lábios enquanto suas mãos passeavam insistentes por seu cabelo a lá Fábio Jr (que depois daquele dia, perdeu todo o charme, diga-se de passagem).

Eu até tentei avisar, entre lágrimas ainda contidas e incrédulas:

- Você sabe o que está fazendo comigo, né?

- Não! Você está fazendo isso com você mesma!

E continuou o sermão sobre como mantenho meus pais sob o que você JULGOU um regime de terror: porque minha mãe ligava a todo instante a você contando meus problemas, perguntando sobre os medicamentos e, nas horas de emergência, quando acontecia algo grave, ela até ousou uma vez ou outra em ligar de madrugada. Mas por madrugada vamos tomar os horários de por volta da meia-noite ou sete da manhã. Regime de terror…me senti o próprio DOI CODI ou a GESTAPO. Quanto à minha mãe ligar o tempo inteiro: ALELUIA QUE CHEGAMOS NESSA FASE! Porque antes ela tinha vergonha de incomodar os médicos, não sabia que certas atitudes estão ligadas ao diagnósticos que vocês, psiquiatras, nos dão. Afinal, o paciente sai do consultório tomando umas quatro drogas que agem no cérebro, então é porque HÁ UM DIAGNÓSTICO, NÃO É? Mas, quando o psiquiatra se transforma em terapeuta, senta no seu sofazinho e se põe a escutar, basta o paciente num descuido, declarar “sim, sei que minha bipolaridade tem tudo a ver com isso, blabla”, aí, OPA!, aí NÃO SOMOS UM DIAGNÓSTICO.

- Tente pensar por que VOCÊ age assim, Juliana, e não porque uma borderline age assim.

Eu entendo o ponto de vocês. Mas parem de nos tratar como idiotas, nos entupindo de remédios e depois agindo como se aquilo tudo fosse chiclete. Sou a Maria, sou a Juliana, sou a Carolina, sou a borderline, sou a depressiva, sou a melancólica, sou intensa, sou divertida, etc, etc, etc, sabe-se lá se sou bipolar (vocês não se decidem, meus amigos doutores!).

Já fui também Zoloft, Lexapro, Depakote, Rivotril, Efexor, Frontal, Oxcarbazepina, Lamitor.

Hoje sou Cymbalta. Hoje sou Topiramato. Hoje sou Wellbutrin. Hoje sou Lexotan. (amigos leitores, com todo o respeito AMO vocês, mas dispenso conselhos sobre a minha medicação atual, passada ou futura, ok?! Terapias alternativas, shiatsu, meditação, tudo isso podem me indicar que ouvirei com respeito, mas sobre medicação não, tá?)

Pois bem, minha mãe telefonava para você sim, doutor, porque olha, 500 reais por semana, acho que ela tem direito de telefonar se a filha dela estiver se debulhando em lágrimas sem motivo ou com um medo inexplicável de sair de casa.

Então naquele dia você resolveu bancar o disciplinador. Disse que mesmo com TUDO O que eu fazia, eu ganhava o que quisesse dos meus pais. OI? Eu só sofria. Eu não saía de casa. Eu não fazia nada. E minhas ações eram REAÇÕES da minha dor interna. Dor interna essa que naquele final de tarde você não estava com vontade de tratar. Sim, provavelmente eu ganho TUDO dos meus pais porque eu os penduro no pau-de-arara até eles me darem. Caro Sinhô Seu Dotô, meus pais me dão o que eles querem e podem dar. E dariam mesmo se eu fosse, sei lá, a Beyoncé! Você afirmou algo DESCONHECENDO TOTALMENTE a dinâmica da minha casa.

Falando em desconhecer a dinâmica da minha casa, quem foi mesmo que disse que seria muito difícil eu estabelecer um contato mais aberto com meu pai? Que eu deveria parar de tentar, pois isso só me causaria frustração?

E quando eu, tão desesperançada, tão ferida e tendo ferido tanto a quem amo, falei que do jeito que eu ia era mais fácil estar a sete palmos do chão do que realizando meu sonho em algum lugar, você concordou. Concordou com palavras, com a cabeça, com o gestual inteiro. Concordou com o corpo inteiro que seria mais fácil eu estar a sete palmos do chão.

Bom, eu não estou. Mesmo assim você disse que meu comportamento estava sendo essencialmente suicida e que não poderia mais me tratar. (Gente, juro pra vocês, sempre fui uma paciente boazinha e ponderada, nunca apontei uma faca pra nenhum terapeuta ou coisa parecida!) É… Você, caro psiquiatra tão recomendado na nossa cidade por ser um bom profissional (mas, vou lhe contar um segredo: também por ser bonitinho), você disse que NÃO PODERIA MAIS ME TRATAR POIS EU ESTAVA TENDO UM COMPORTAMENTO SUICIDA. Eu não sei quantas vezes terei que repetir isso para entrar na minha cabeça. Imagina o meu espanto: para onde vão as pessoas suicidas? Para o psiquiatra! Imagina o meu espanto: você não reconheceu que eu estava fazendo alarde, mesmo que inconscientemente para chamar a atenção, e que NÃO, EU NÃO ME MATARIA!

NÃO ME MATARIA TENDO PUBLICADO UM ÚNICO LIVRO, NÉ? NÃO PRA MATAR MINHA MÃE JUNTO! NÃO POR UM MONTE DE MOTIVOS.

Às vezes a gente arranha as paredes, doutor, mas a gente já sabe que de dentro delas não sai sangue. Me matar e perder a chance de estar cuidando da gatinha que apareceu no meu portão? Me matar e perder a oportunidade de ouvir Ray Charles cantando Mess Around, como estou fazendo agora? Você só me conhecia há 2 meses para prever que eu iria tirar minha vida ou para achar que ameaçar não mais me tratar iria surtir algum efeito positivo.

Como se não bastasse, você foi magistral ao afirmar que eu deveria sentir culpa pelo que eu fiz (deixo claro aqui que não matei, não roubei, não sequestrei, não torturei). Um terapeuta, um TERAPEUTA, MEU DEUS, DIZENDO:

- SIM, VOCÊ DEVE SENTIR CULPA!

Completando com:

- Você precisa se arrepender.

Erro duplo já que a culpa já é um dos piores monstros que carrego e ouvir alguém em quem eu confio, com quem vou buscar ajuda sem censuras e julgamentos, afirmando para eu me culpar foi AARRGGGHHH (como posso colocar em palavras?) BIZARRO. Em segundo lugar culpa e arrependimento são sentimentos tão distintos…

Segue aqui dois textos bem legais sobre a culpa e o sentimento de auto-punição a que ela pode levar:

Auto-estima: a diferença entre culpa e responsabilidade

Sentimento de culpa leva à auto-punição

A principal e mais grave punição para quem cometeu uma culpa está em sentir-se culpado.

(Sêneca)

Já ARREPENDIMENTO:

Do grego μεταμέλεια – Metanóia (Meta=Mudança, Nóia=Mente), arrependimento quer dizer Mudança de Mentalidade.

Na origem da palavra, arrependimento quer dizer mudança de atitude, ou seja, atitude contrária, ou oposta, àquela tomada anteriormente.

Nem precisa ilustrar muito a diferença entre os dois né?

Mas algo que eu não posso ilustrar, nem descrever é a dor de se sentir traída por uma pessoa que estava ali para entender TUDO, TU-DO (tudo bem, é um profissional). E, claro, se houvesse alguma atitude mais drástica a ser tomada depois, que fosse tomada, mas depois.

Não dá pra ilustrar a dor no peito de quando aquele seu amigo/confessor, aquela pessoa em quem você confia, muda suas feições. É visível a mudança e a dor é física, daquelas que a mocinha de novela mexicano faz um OH! e prende a respiração, sabem? É, eles não inventaram isso aí do nada! Sabe o que é mais humilhante? Não são as coisas super íntimas num sentido sexual ou sentimental que a gente conta, não são as coisas “adultas”. Foi aquela sua palavra boba, aquela sua invejinha, aquela obsessão no “jeito” do outro… São aquelas coisas do tipo “aí fulano disse assim, aí eu peguei e fiz assim, aí eu fiz de propósito mesmo só pra provocar, aí eu vou contar tudo mesmo e não quero nem saber”. São as criancices confiadas aos doutores da mente? Alma? Psiquê?

Fiquei pensando se o tempo todo, nas outras sessões, você estava me julgando uma patricinha mimada? Uma riquinha? Uma intelectual da depressão? Uma diva obcecada? Uma aterrorizadora de pais? Hehehehe Essa foi a melhor.

Doeu pra caramba. Agora chega. Ainda dói um pouco, mas eu tento não pensar.

E por que o desabafo tinha que ser por aqui, na frente de todo mundo? Porque sim, uai! Estamos na década de 10 do século XXI. Se posso tornar uma coisa pública, por que vou mantê-la privada?

 

 

Não use protetor-solar

O mundo não precisa ser sempre igual. Seus dias não precisam passar de repente. Pegue uma fórmula pré-fabricada, testada e aprovada e rasgue-a em mil pedacinhos. Deixe pra qualquer manhã o que não precisa fazer hoje. E guarde um mês inteiro para não cair em tentação, Amém.

Sorria ao lembrar que ninguém aqui é permanente. Não imagine as pessoas nuas para perder a timidez ao falar em público. Imagine-as como macacos. A rima é muito boa, mas resista a usar timidez e siamês na mesma frase.

Misture seus poemas preferidos e coma cebolas se você não gosta (méritos a uma brava louca amiga que se sentou com um pote de cebolas e as devorou TO-DAS, mesmo abominando-as).

Não seja sociável, não seja misógino, não seja amável, não seja rude. Seja aquele que prova todas as roupas da loja e não leva nada. Quando comprar roupas, NUNCA as experimente. Dê tudo que está sobrando, inclusive seu tempo.

Saiba com quais músicas se identifica e por que. Mas não seja chato falando sobre como cada verso poderia ter sido inspirado em sua vida, principalmente numa mesa de bar. Nunca diga que sua vida daria um livro. TODA vida daria um livro. Mas, se houver justiça divina nesse mundo, aqueles que dizem que sua vida dá um livro, viverão o resto da existência num tédio enlouquecedor.

Chape-se de sono. É só não dormir, mesmo quase não aguentando. Logo vai estar rindo loucamente.

Não esqueça que ninguém quer ouvir sobre as suas rugas. Sobretudo, PELO AMOR DO BOM DEUS, se o interlocutor for mais velho. Ah! Também não querem ouvir sobre a sua gordura, seja você gorda ou magra.

Não perca seu tempo lendo a revista Caras. Faça listinhas como essa. Nem que seja para jogá-las fora depois ou deixá-las dentro das revistas de sala de espera de consultórios (psiquiátricos, de preferência).

Úlcera

foto: Marina Bitten

Não pedi perdão. Não nego a vergonha. Não nego a culpa, o medo do exagero, sempre ele, o medo do exagero. Mas eu não pedi clemência. Ofereceram-me de bom grado, o que a princípio me pareceu. Seria uma grande prova passar por cima de tamanhos insultos. Disseram que nada levariam em consideração. Nada do jorro de vômito das minhas palavras apodrecidas. Que nada daquilo era válido, que tudo era perdoado, uma borracha em cima passada. Eu nada disso pedi. Nem borracha, nem clemência, nem ouvidos moucos, nem perdão. Mas como sou aquela que espera além das expectativas, esperei. A recepção. Todos reunidos. Um dia. A sala. Cheia. O abraço. O começar do zero, me disseram. Me disseram? Disseram-me? Aquela não é quem conhecemos. Claro que não. Eles não conhecem nem aquela, nem esta, nem a que bateu, nem a que apanhou, nem a que dançou, nem a que brilhou os olhos. Eles não conhecem at all. Mas por que? Por que dizer “passamos por cima de tudo aquilo”, “não deixamos de amá-la”? Como amas ao próximo como a ti mesmo? Ignoras-te? É assim que te amas? Por que dei-lhe a mão, se nada se passaria depois? Algumas coisas o tempo não cura, algumas coisas o tempo apodrece. Eu não pedi. Mas esperei. Esperei que me abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta.

Operário em Construção

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as asas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato como podia
Um operário em construção
Compreender porque um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento

Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse eventualmente
Um operário em construcão.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma subita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão
Era ele quem fazia
Ele, um humilde operário
Um operário em construção.
Olhou em torno: a gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Nao sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua propria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro dessa compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele nao cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Excercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edificio em construção
Que sempre dizia “sim”
Começou a dizer “não”
E aprendeu a notar coisas
A que nao dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uisque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução

Como era de se esperar
As bocas da delação
Comecaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação.
- “Convençam-no” do contrário
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isto sorria.

Dia seguinte o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu por destinado
Sua primeira agressão
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras seguiram
Muitas outras seguirão
Porém, por imprescindível
Ao edificio em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo contrário
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher
Portanto, tudo o que ver
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse e fitou o operário
Que olhava e refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria
O operário via casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! – gritou o patrão
Nao vês o que te dou eu?
- Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martirios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construido
O operário em construção

(Vinicius de Moraes)

Há uma vaga mágoa no meu coração

E quando a oração deixa uma tristeza? Cheguei em casa alegre. Vestido novo – há muito tempo não saía de casa tão bem vestida – cabelos com cachos do jeito que eu gosto, belos cachos (me desculpem, mas vou ter que usar a expressão) cachos formando uma cascata de ouro em meus cabelos; a gatinha tão querida, minha nova e amada paixão: cheirosinha, de banho tomado, pelo escovado, perfumada, laço no pescoço (alaranjado, minha cor preferida), strass da mesma cor colado acima do focinho… Veio dócil no carro, bem postada no meu colo sem reclamar. Parecia que eu estava indo rumo há muitas possibilidades, sabe? Criança de vestido novo, nota 10 na prova, brinquedo comprado com seu próprio dinheiro.

Mas algo já estava lá esperando por mim. Estavam esperando por mim. E como eu sabia que ela seria recebida se apenas determinada pessoa estivesse, com festinhas, brincadeiras, bobeiras, não foi assim que aconteceu. Nem todos quiseram cheirá-la. Como podem todos não quererem cheirar uma gatinha tão linda? E o meu peito se apertou. Foi pedido que eu a levasse “pra lá”. Mais peito apertado. Ninguém viu meus cachos, ninguém viu meu vestido, ninguém viu que depois de tanto tempo eu estava de saltos e não arrastando chinelos como uma doente. Estavam ali por um compromisso que ultrapassa essas coisas; pensando além do material. Mas essas coisas materiais marcaram vitórias da alma e do espírito; vitórias também do ânimo, do compromisso e da responsabilidade sobre a apatia. Acontecimentos que marcam “dias sim”.

E por que essa sensação de pesar depois da oração? Depois de algo tão perfeito e especial que só uma oração pode ser. Uma tristeza lânguida me tomou. Talvez porque ali naquela roda eu me lembrei de tudo que se foi; de tudo que eu já não tenho mais; da mão ao meu lado que tanto eu lutei para que fosse parte de mim, e de repente, já nem posso olhar nos olhos de seu dono.

Talvez porque eu não compreenda e nunca vou compreender e saiba que só sobrenaturalmente é possível compreender esse Deus que não faz acepção de pessoas. O pregador que estava ali, conduzindo a oração, é tão filhinho querido, tão amado; pelo “olfato” de Deus ele é tão cheirosinho (como o perfume que maravilhou-me em minha gata), quanto o Rogério, que me pediu trocados para cachaça na Rua Augusta. E me apresentou sua mulher. Tive vontade de abençoá-los ali, mas não o fiz. Apenas vi nos olhos dele uma força e falei. Falei que ele era forte. Deve ter me achado mais maluco que ele. Até porque ele deve passar um monte de perrengue, morar no cafundó do Judas, e pensar “tá bom branquela, fala uma novidade agora!”

Mas quanto à oração que me deixou tão cabisbaixa, é claro que não rejeito o que foi pedido, buscado, declarado. O que, em silêncio, invoquei. Talvez eu já não esteja mais acostumada a esse peso. Talvez eu tenha pesos demais. “Minha metralhadora cheia de mágoas”.

Só sei que a gata não incomodou nem um pouco naqueles minutos.  E agora me rodeia, brincando de um jeito engraçado. Não me canso de olhá-la. Vou terminar de escrever e cheirá-la muito. Será que Deus é apaixonado assim pela gente?

Acho que a tristeza passou. É. Eu acho que sim.

Título: extraído do poema Paira à tona d´água, de Fernando Pessoa

Naturaleza Sangre

Compreendo os cortes. Mas não compreendia – e condenava – o fato de muitas pessoas exporem fotos de seus cortes auto-infligidos. Achava um mal exemplo, podendo levar outras pessoas a fazerem o mesmo apenas por imitação. Isso pode acontecer, em parte. Porque se já não havia esse desejo anterior, ninguém vai machucar-se somente por ver imagens de sangue e auto-mutilação. É como culpar filmes e video-games por assassinato.

Hoje entendo que a dor é tão grande, que não só existem pessoas que sentem alívio na dor, como também NECESSITAM compartilhá-lha. Hoje sei que ela é prazer, vício, mania, fuga, costume e, não raro, o momento tristemente especial da vida de uma pessoa. E como tantos outros que querem dividir seus momentos banais, suas manias ou o ponto alto do dia, os “self-harmers” também desejam compartilhar esse pedaço de suas vidas. Talvez para eles o mais significante pedaço. E, mesmo que  neguem, estão sim pedindo socorro, pedindo um abraço, carinho, compreensão. Alguns já vivem num nível tão profundo da falta de tudo isso que negariam veementemente se esses gestos lhes fossem oferecidos. Mas eles querem mostrar que existem. Mostrar o sangue é expôr a própria existência sempre tão calada pelo caos da vida.

Por tudo isso já não condeno mais quem fotografa suas feridas e as publica em redes sociais. Fazemos isso com nossas festas, nossas férias, nossas alegrias – muitas vezes mentirosas – porque eles não podem mostrar o seu quinhão de vivência ao mundo? Mesmo que essa vivência os aproxime mais e mais da morte. Mas, afinal, não estamos todos nos aproximando da morte?

Disfarces e Recomeços

 

Sei muito bem que você não acredita no amor, nem na possibilidade de ser feliz. Sei também que você disfarça, imita cada diva hollywoodiana do momento, empina o nariz, engole suas pílulas e brinca de felicidade. Mas assim como quando éramos pequenas e preparávamos as brincadeiras de Barbie, montando tudo (a casinha, a sala, a piscina, a banheira, o quarto, a cozinha, todos os nossos apetrechos em miniatura),  quando todo o cenário estava pronto não queríamos mais brincar. Vejo que hoje você prepara o que for necessário, detalhe por detalhe, e não desiste de brincar quando o esquema está armado. Vai até o fim. Mesmo que ao final você termine entediada sem sabe por quê. Mas eu percebo amiga, que suas brincadeiras, nossos disfarces, meu “jeito rock’n roll” e sua pose de diva vão nos cansar e vamos nos tornar (tenho até medo de dizer) amargas!

Nesse dia não encontraremos mais o que é autêntico. E sem autenticidade tudo se perde. Se um dia isso acontecer, prometa para mim que vai procurar a felicidade.  Que pedido mais bobo e simplório, você deve estar pensando, mas, cá entre nós amiga, nessa vida há poesia e banalidade em todas as coisas, o que pode ser simplório num dia, pode revelar-se mágico no outro. Portanto, procure. Procure, procure essa tal felicidade. E aproveite para começar fazendo desse pedido uma valsa-pastelão. Coloque aquele vestido longo e rodopie ao som de Danúbio Azul em 2001, Uma Odisséia no Espaço. Mas, calma! No dia seguinte, se ainda estiver de posse de suas faculdades mentais (bom, não precisa ter cursado todas as disciplinas), comece devagar, sentindo e prestando atenção em coisas pequeninas, porque nelas talvez você encontre la felicitá: sinta a brisa gelada que entra por debaixo da porta, descubra um detalhe dentro de sua casa no qual você nunca tinha reparado antes, coma uma maça (COM CASCA) só pelo prazer e beleza da primeira mordida, deixe o sol esquentar seus ombros e seu colo, sorria para a lua e mande um beijo a ela, faça de conta que você está voando junto com os passarinhos, chute pedrinhas ao caminhar, sorria para o espelho… Eu poderia fazer uma lista infinita, mas sei que você encontrará seus caminhos em busca da felicidade e autenticidade perdidas. Devagarinho e intensamente. Sei muito bem que você não é vazia e que se um dia sentir-se letárgica, desacreditada de tudo, a vida vai acender em você uma chama jamais vista.   

Nada a perder

Já que o amor tem que começar em algum lugar, ou melhor, direcionado a alguém, ela decidiu: iria amar a si mesma.

Vejam bem, não foi uma conclusão fácil, apesar de óbvia. Nem tudo que é óbvio é fácil. Também não foi uma resolução poética, nem o tal do “ligar o foda-se”. Ela não via nada mais patético do que essa expressão. Não conseguia acreditar quando visitava os perfis de seus colegas em redes sociais e lia “Não gosta de mim? Liga para a minha preocupação e veja se ela atende”, “Sua inveja faz a minha fama”, “100% autêntico”! Urgh! Dava vontade de vomitar! Aquele bando de jovens capitalistas (não que ela fosse socialista, gostava muito de sua propriedade privada), escravos do consumo, dominados pela mídia, hipnotizados pela TV (ou, os mais cultos, pelo cinema), produtos feitos em série, ensinados a agradar desde que nasceram, os filhos do Admirável Mundo Novo: esses, ESSES MESMOS, declarando sua superioridade sobre seus pares, afirmando uma autenticidade inexistente, acreditando-se invejados, acreditando-se especiais, enchendo a boca para dizer que “ligaram o foda-se”. Não há “foda-se” para ligar. Não existe esse botão. Existem os botões “o que preciso para”, “o que querem que eu”, “como posso ajudar”, “quero fazer parte”, “não quero ser o diferente”, “como faço para chegar lá”, “quanto? quanto? quanto?”, “quero, quero, quero”. Ela ao menos fazia parte dos poucos que sabiam disso. Ela ao menos era uma escrava consciente, o lhe permitia cometer um delito aqui, outro ali e dar umas escapadas de vez em quando.

Mas escapadelas já não supriam e, às vezes, ela chegava a invejar seus amigos de frases bobas. A fé que eles tinham em si mesmos, não importando que fosse um pouco falsa de vez em quando, lhes fazia seguir em frente com um sorriso no rosto, sem pensar muito e esperando sempre o melhor. Porque olhavam no espelho e viam pessoas dignas de serem amadas. Claro, eles também se odiavam vez ou outra. Mas ela? Ela vivia nesse estado permanente. Então num dia de descaso misturado ao enfado causado pela raiva, ela entrou sem querer naquela sala. Não era ali que deveria estar. Mas como estava atrasada (um pouco de propósito) e não se importava em cumprir nenhum compromisso mesmo, ficou ali na sala errada. Falavam sobre auto-estima, “tomar as rédeas da própria vida”, não desperdiçar o tempo, encontrar algum significado pelo qual viver – alguma meta, mesmo que pequena e… É, só podia ser, ela pensou, – Amar. As pessoas lá reunidas não falavam de amor como algo romântico apenas, ou como algo grandioso, ou divino, em que é preciso doação 24 horas por dia por uma causa nobre… Não! Apenas amor, puro e simples amor: cuidado, carinho, proteção, incentivo, troca, verdade… E em alguns casos seria uma via de mão única. Alguns se comprometeram a amar mais o cachorro do vizinho que late nas piores horas, outros escolheram amar aos outros motoristas no trânsito (até mesmo os que fecham e não dão seta). Ela… Ela logo soube quem seria o alvo do seu amor. Aquela que ela vivia destruindo de variadas formas, cometendo assassinato pouco a pouco com doses de venenos, aumentando gradativamente o poder letal e a quantidade, aquela a quem ela tratava com desleixo.

Então, bem, o que mais posso dizer? Como alguém que fica de saco cheio da vida e decide trocar o suco de laranja por vodka no café da manhã, nossa amiga jogou tudo pro alto e resolveu se amar! Ora, nada mais tinha sentido mesmo, o que ela tinha a perder? Partiu para o ato final. Puxou o gatilho do amor.  

PS.: Tentei de todo jeito arrumar esse espação em branco que ficou aí embaixo. Não sei o que houve. Considere que é pra você ter um tempo de refletir sobre o texto antes de chegar ao próximo post. Belê? Jóinha!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eles não existem

“Há coisas que EXISTEM. Outras que apenas ESTÃO.”

(Clarice Lispector – Perto do Coração Selvagem)

Desculpe tantas maiúsculas, tantos destaques nas palavras como se você fosse cega. Bem… Enxergar claramente não é uma de suas mais notáveis qualidades. Você sabe, eu sei. Duas ou três doses de rejeição e lá está você: visão turva, cambaleando rumo à primeira vala que aparecer ou subindo em todas as mesas e cadeiras, vociferando, entretendo à platéia com seus números hilariantemente tristes. Não sei você, mas eu acabei de perceber um paradoxo que viaja do céu ao inferno: ou a vala, o esgoto, o poço, a sujeira, fundo, fundo, fundo, seu esconderijo submundo. Por outra parte, ahh… O CIRCO, o cabaret, o cancan, o palco, qualquer boate suja se transforma em seu Moulin, e de rouge há apenas seu batom, borrado de tanto distribuir beijos indistintos. Ali você é atração, meio da roda, dona do grupo! Dá, manda, presenteia e, bem, é “presenteada” (com companhias sangue-sugas, plânctons que se alimentam das migalhas de fichas para comprar mais tequila que caem do seu bolso. Porém, cambaleando você começou, cambaleando terminará. Não importa o quanto se esconda, não importa o quanto se exponha, a dor doerá. Porque é isso que dores fazem. Dores doem.

Mas já está na hora de parar com essa vida de fugas; se a dor vai parar eu não sei. Ou melhor, posso afirmar saber um pouco: diminuirá. A dor da rejeição, essa maldita dor que nos pega de surpresa e age além do que podemos suportar.

Por isso, preciso repetir: HÁ COISAS QUE EXISTEM. OUTRAS QUE APENAS ESTÃO.

Quem não te ama, quem não te quer perto, tampouco te deseja, nem te procura: APENAS ESTÁ. É passageiro, vagando por sua vida. Não tens obrigação de tratá-lo como nada além de um caixeiro viajante. Ele NÃO EXISTE de modo concreto e real. Não existe para você. Guarde isso dentro da sua mente desejosa de aceitação. Quem quer aceitação de um ser inexistente?

Quem não te cuida, quem não te enxerga, é apenas mancha nebulosa, nuvem de chuva de verão. Deixe que a chuva desmanche-se sem plateia. Abra seu guarda-chuva. Ignore-a.