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Matando os leões errados

As pessoas lhe dizem o tempo todo que você não precisa ter medo. “As pessoas”? O mundo, a sociedade, o establishment, o senso comum. Dizem? Talvez não com palavras. Muitas vezes sim, mas não o tempo todo. Os exemplos de “sucesso” estão aí rondando a sua vida. Tudo parece tão óbvio. Você deve matar um leão por dia. Mas que leão é esse? Segundo os ditos “normais”, ele é sua própria vontade e os medos que você está proibido de sentir. E se esse leão for a sua obsessão de provar algo o tempo inteiro, para os outros e para você? E se o leão que você deve matar for a obrigação de ser sempre belo, sempre cheiroso, sempre inteligente, sempre bem-humorado?

De vez em quando algum “diferente” destaca-se e alcança notoriedade. Aí seu jeito único de ser torna-se exemplo. E o “diferente” vira modelo de bem sucedido. Mas só quando ele se destaca. Só quando o mundo começa a aprová-lo justamente por ele viver “fora da caixa”. Mas ai de quem vive fora da caixa e não é reconhecido pela massa. Vive à parte. Condenado a guerrear consigo mesmo, obrigando-se a “achar um rumo na vida” mesmo contra todas as aspirações contrárias. Então, você se abafa, seus ossos doem, seu estômago é uma bomba de gastrite ambulante e sua mente vira um mundo de contradições.

Ah, se fôssemos livres. Ah, se todas aquelas descrições de perfis no orkut expressassem a realidade: “sou o que sou e ninguém tem nada a ver com isso”, “gosto dos venenos mais lentos”, “vivo para mim e não para os outros”, “não tenho a pretensão de que todos gostem de mim”, “elogios não me iludem e críticas não me abalam”… Quão mais leves seríamos se essas citações fossem verdadeiras. Mas elas não são. Elas são nosso ideal, nossa utopia. No fundo, queremos ser amados, elogiados, aprovados, admirados. Ninguém deseja ser o protótipo de derrotado que a sociedade estabaleceu. Dizemos ironicamente: “não sou um completo inútil, ao menos sirvo de mau exemplo”. Bom seria se fosse verdade. Se não nos incomodássemos em ser julgados como inúteis. Quantas coisas belas realizaríamos se aceitássemos nosso próprio EU. Seríamos poupados de tantas desilusões, nossos corpos não precisariam de tantos anestésicos, não reviraríamos na cama todas as noites em angústia permanente. Quantos empreendimentos e quanta arte não veriam a luz do dia se aceitássemos nossa condição de derrotados perante o “sistema”?

Mas queremos matar o tal leão. Não NOSSOS leões. Os leões que nos ensinaram que precisam ser mortos. Quem sabe, justamente esses, devem ficar vivos e comer de nossos pratos. Pra que matar leões que representam tudo que não queremos ver morrer dentro de nós?

Você quer ser Pedro?

“Vai pro seu trabalho todo dia
Sem saber se é bom ou se é ruim
Quando quer chorar vai ao banheiro
Pedro as coisas não são bem assim”

(Raul Seixas e Paulo Coelho – Meu Amigo Pedro)


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15 Comentários on “Matando os leões errados”

  1. #1 sabeacarol
    on Jan 14th, 2011 at 15:29

    certa vez tuitei que ‘passamos uma vida inteira reclamando de um defeito físico. mas quando achamos alguém com o mesmo defeito, passamos a nos sentir melhor.’

  2. #2 Le
    on Jan 14th, 2011 at 15:58

    Que bom que vc não só entendeu o que eu quis dizer mas, como sempre, foi MUITO mais além.
    Ler tuas coisas só me fazem ver o quanto eu tenho razão em te enxergar como eu enxergo. Única.

    (Adorei a foto da donzela linda, de rosa, na floresta com rosas, e com o leão MANSO ao seu lado)

  3. #3 Juliana Dacoregio
    on Jan 14th, 2011 at 17:21

    Matando os leões errados http://is.gd/MLHUJb

  4. #4 Desencontro 2011
    on Jan 14th, 2011 at 17:24

    RT @JuDacoregio: Matando os leões errados http://is.gd/MLHUJb

  5. #5 Carol Barreto
    on Jan 14th, 2011 at 17:30

    'Se não nos incomodássemos em ser julgados como inúteis' (por @JuDacoregio) http://is.gd/MLHUJb

  6. #6 Gabriela
    on Jan 14th, 2011 at 21:19

    Eu leio seu blog há um tempo, em silêncio. Mas hoje tive que comentar, seu post veio muito a calhar. Por vários anos, seguindo o caminho da menina de família bem sucedida, pensei: “talvez ser adulto seja isso, seja matar mil leões por dia, seja aguentar, seja sofrer, seja fazer coisas que me deixam infeliz e que eu sei que não me pertencem”. Semana passada tomei a decisão de começar uma nova graduação (sou formanda em Direito), em jornalismo, e nunca me senti tão feliz, liberta de grilhões que definitivamente não precisam me limitar, não são meus. Creio que ao fim e ao cabo, é sempre muito difícil entrarmos em contato com o NOSSO desejo, que fica tão nebuloso e velado em função dos desejos dos outros (que Às vezes não tem rosto nem nome), das expectativas alheias, do esteriótipo da pessoa bem sucedida, da pessoa que “deu certo”. Mas bah, nos desvencilharmos disso tudo e abrirmos mão da expectativa alheia, assumindo um desejo tão somente nosso, DÓI pra caramba, e exige coragem! Adorei seu post. Um beijo.

  7. #7 Heresia Loira
    on Jan 14th, 2011 at 21:54

    Matando os leões errados http://is.gd/MLHUJb

  8. #8 Milson Costa
    on Jan 14th, 2011 at 22:07

    RT @heresia_loira: Matando os leões errados http://is.gd/MLHUJb

  9. #9 Matando os leões errados : PavaBlog
    on Jan 15th, 2011 at 21:02

    [...] fonte: Paperback Writer Girl [...]

  10. #10 Leonardo Xavier
    on Jan 16th, 2011 at 13:34

    Eu acho que poucas pessoas realmente conseguiram alcançar reconhecimento sem fazer concessões, talvez seja mais raro ainda os casos onde uma vez tendo alcançado esse reconhecimento a pessoa não fez um monte de concessões para mantê-lo.

  11. #11 Juliana Dacoregio
    on Jan 16th, 2011 at 20:33
  12. #12 judacoregio
    on Jan 20th, 2011 at 14:40

    É mesmo o caminho mais árduo: alcançar notoriedade ou mesmo ser bem sucedido sem fazer concessões. Infelizmente, a vida é uma caixinha de suspresas com algumas realizações e muitas frustrações.

  13. #13 Indy
    on Jan 21st, 2011 at 14:11

    Não sei quando tudo isso virou regra,mas Zeus como eu queria não estar nem ai.Ontem mesmo disse a uma amiga minha que não ligava de ser a “mulher pantufa” do meu namorado.É, aquela que pra ficar em casa é gostosa mas pra sair na rua dá vergonha.Brinquei ainda que sou a “mulher brócolis” de outro cara.Que é aquela que ele não gosta,mais vai ter que comer.Na realidade uso muito do humor pra falar sobre tudo aquilo que me machuca,maltrata,esmaga e corroe.Não é porque estou rindo que acho graça,mais quando eu choro é porque doe mesmo.

    Ju saudades de vc,fique bem.Vc é mais presente em minha vida do que imagina.

  14. #14 judacoregio
    on Jan 21st, 2011 at 14:44

    Você também é bastante presente em minha vida Indy, como essa menina louquinha, que expressa suas idéias de uma forma às vezes toda misturada, mas que é muuuuito inteligente.
    Já estava sentindo falta de seus comentários!

  15. #15 Juliana Dacoregio
    on Mar 18th, 2011 at 07:37

    RT @sabeacarol: 'Se não nos incomodássemos em ser julgados como inúteis' (por @JuDacoregio) http://is.gd/MLHUJb

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