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Fotos, sensualidade e auto-estima (Muito além do #lingerieday)

(Obs.: o que é narrado aqui, apesar de estritamente verdadeiro, nada tem a ver com uma pessoa que fez parte da minha vida, muito de perto, até poucos dias. Faço questão de deixar claro. Apesar de não dever satisfações a ninguém, pelo respeito que tenho ao que vivi nos últimos meses.)

Estava tudo marcado: hora, data, local para acontecer. A fotógrafa Marina Bitten, uma grande amiga e profissional em ascensão, havia montado seu estúdio e me convidara para ser uma das primeiras modelos para o novo ramo em que pretendia investir: os ensaios sensuais.
Conhecendo o trabalho de Marina e sabendo que ela vê a mulher não apenas como um corpo, mas como uma alma completa, que deve ser retratada captando suas nuances e sentimentos, concordei de pronto. Claro que quando aceitei não sabia o que estava para acontecer. Nem imaginava que no dia marcado o que eu menos gostaria de fazer era posar com sensualidade, ou mesmo posar para lentes de qualquer fotógrafo de qualquer forma que fosse.

Entre o período em que agendamos tudo e a data em que as fotos seriam realizadas, meu namoro acabou e sofri um acidente.
O acidente não foi grave, saí ilesa, com exceção de hematomas e dores que aos poucos iam aparecendo à medida que deixei os analgésicos. Mas as marcas maiores não eram no corpo. Clichê dizer isso, mas alguém já disse que os clichês não são clichês à toa: a verdade é que as marcas roxas em minha pele não eram nada perto das feridas abertas em meu coração. Não era apenas um namoro que terminava. Era um relacionamento doentio de três anos, que quase acabou com minha auto-estima.
Eu estava presa naquilo que considerava um grande amor, mas que na realidade foi como um exílio, um exílio de mim mesma, em que convivi com silêncio, desprezo, demonstrações de carinho, seguidas de palavras de depreciação. Pode parecer que o fim de um relacionamento desse tipo represente uma total libertação. É verdade, claro! Mas três anos não se apagam facilmente, sobretudo porque eu mesma, com muita dificuldade e uma força de vontade que já não tinha tive que pôr um basta naquilo.
Tempos depois do fim registrei em um dos meus muitos diários:
Escrevo, nesse exato momento, sentada (quase deitada) na cama ao som de Janis Joplin.

“Take another a little piece of my heart now, baby”

Ela grita. Ela clama, “venha, tire outro pedaço do meu coração, baby”! Era isso que eu gritava para ele. Não com minha voz, mas com minha passividade.

Cada volta, cada pedido de desculpas aceito, em todas as vezes que implorei por perdão, mesmo não tendo culpa alguma… Todos esses momentos, lá estava eu, pedindo que tirasse mais um pedaço do meu coração.

E ele tirou. Tantos pedaços quanto possíveis. Tantos quantos permiti. Sim, pois sem minha permissão ele não os teria arrancado.

Mas, como uma mulher que apanha do marido, e por motivos diversos e absurdos, não o abandona, assim procedi. Fiquei. Fiquei até minha auto-estima ser estraçalhada. Sei que meus motivos foram insanos, mas já não é hora de me condenar. Acontece. Você vai ficando. Perdoando. Acreditando. Esperando uma mudança que nunca vêm.

Não sofri violência física. Mas humilhação, jogos de poder e abuso psicológico deixam seqüelas. Sequelas físicas, inclusive, que ultrapassam a alma e explodem no corpo. Gastrites, úlceras, dores de cabeça, tensão nos ombros, comportamentos destrutivos. Foram essas as marcas que ficaram. Pedaços da minha sanidade sendo arrancados enquanto ele exercitava sua indiferença implacável.

Mas esse distanciamento só foi possível após uns bons meses.
Logo que decidi acabar com tudo e mantive minha posição vieram as críticas, as palavras duras, a culpa sempre jogada em cima de mim, seguidas de pedidos de perdão e apelos, para em seguida voltarem as frases que mais pareciam maldições.
Na verdade, hoje, já se passou mais de um ano que me libertei desse cativeiro. Mesmo assim as palavras ficaram cravadas em algum lugar de minha mente e de vez em quando são acessadas; fui chamada de velha aos 27 anos, ouvi que minha beleza estava acabando, que eu era um capacho de meus irmãos, que meus amigos eram interesseiros, que eu estava engordando, que eu tinha um problema sério de celulite, que eu ia morrer cedo por causa do cigarro e do Doritos, que minha família me fazia mal, que eu nunca iria dar certo em nada na vida, que precisava ser internada num hospício, e tantas outras coisas que agora não me lembro.
Adjetivos eram muitos: patética, fútil, ridícula, louca, perdedora… Nossa, como ele adorava essa palavra: PERDEDORA. Tudo isso dito como uma sentença, como se eu fosse a ré e ele o juiz.
Por que demorei três anos para me livrar disso? É tão complexo. Creio que eu levaria bem mais de três anos tentando explicar. Mas quem já passou por algo parecido, com certeza entende.

Por isso que, mesmo depois de decidir me desprender desse amor-carrasco, eu ainda sofria. Inacreditavelmente sofria por sentir sua falta e sofria porque suas palavras agora chegavam em e-mails gigantes, com uma fúria ainda maior, tentando (muitas vezes com êxito) me persuadir de que eu realmente não era nada, menos que nada, que ele havia feito um favor em ter ficado comigo e me chamando de demônio.
Não é difícil entender então porque o que eu menos gostaria era de posar para fotos. E fotos sensuais, ainda por cima! Meu Deus, a última coisa que eu me sentia no mundo era sensual!
Minha feminilidade havia sido pisada, depreciada; eu já não enxergava meu corpo como algo belo, mas vergonhoso, cheio de defeitos e imperfeiçoes.

Além disso, ainda sofria o stress comum a quase todas as mulheres após o fim de um relacionamento: pele opaca, falta de brilho nos olhos, alimentação desregrada, noites mal dormidas, coisas que a gente sabe muito bem que deixam marcas na aparência.
Concluí que seria impossível servir de modelo naquela situação física e emocional em que estava. Liguei para a fotógrafa que, por ser minha amiga, acreditei que entenderia e deixaria as fotos para quando eu estivesse me sentindo melhor. Ela entendeu o que eu sentia. Mas não concordou com meus argumentos. Falou de minhas qualidades, do quanto ela admirava minha pele, minha postura, minha expressão, enfim, não me deixou sucumbir ao auto-desprezo, auto-compaixão, desânimo, seja lá o que fosse aquilo.
Ainda insisti, dizendo que estava inchada, que precisava pintar a raiz do cabelo, que tinha de fazer as unhas… Ela? Vem com a raiz assim mesmo, a unha não importa, deixa de ser boba!

Não digo que suas palavras me colocaram lá no alto e fizeram desaparecer minha tristeza. Mas simplesmente desliguei o telefone e decidi seguir o fluxo. Ainda pensei, “bom, se ela me vir e achar que estou mesmo imprestável, vai decidir marcar para outro dia”.

E um ou dois dias depois, lá estava eu no local marcado para as fotos: com meus hematomas, meu coração despedaçado, esmalte fosco, raiz aparente. Ah, e ainda com o ex me mandando mensagens atrás de mensagens me cobrando ninharias, agredindo, menosprezando. O de sempre, mas ainda doía.
Até que em meio a figurinos, produções, maquiagens, penteados, Marina e sua equipe foram fazendo com que eu me sentisse mulher de novo. Eu já tinha feito outros ensaios sensuais, fui modelo de lingerie para catálogos, mas naquele dia cheguei lá acuada, achando feio me expor, com vergonha de mim mesma, com medo de ter de fazer poses que eu não queria.
A cada troca de roupa, a cada clique, a cada palavra de incentivo da fotógrafa fui lembrando quem eu era. Sem forçar qualquer atitude. Apenas sendo eu mesma, sem esconder a dor, mas também sentindo meu brilho e minha força renascerem.

À medida que posava e era muito bem tratada pela equipe de Marina fui me soltando, recordando que eu era, sim, uma mulher por completo e que a humilhação que sofria por parte de alguém que um dia acreditei me amar não havia destruído minha sanidade e meu poder feminino. Saí de lá com ânimo renovado. Claro que ainda sofri, claro que ainda senti a dor de ser abusada psicologicamente, mas o prazer de ser mulher havia retornado.
Por isso que acredito que um belo ensaio fotográfico, feito por um fotógrafo competente e sensível, pode reavivar a auto-estima de uma mulher. O mais importante é que nada havia sido artificial. Nenhuma pose desconfortável onde eu tivesse que empinar a bunda por vários minutos até adquirir uma lordose. Tudo calmo, tranquilo, com tempo para conversar, desabafar; uma verdadeira terapia em photoshoot.
Então faço questão de dizer que Marina Bitten foi a fotógrafa que melhor me retratou até hoje. – E é bom saber que o prazer que senti ao ser fotografada, ela também sentiu ao me fotografar; inclusive escreveu de forma linda sobre isso – Não só naquele ensaio, mas em outros também. Ela captou meus sentimentos, sentiu minha necessidade de apoio, sem esquecer da técnica.
Não digo que fotos sensuais sejam a salvação da auto-estima de toda mulher, mas tenho certeza que é o que acontece com muitas. Acho que por isso o #lingerieday faz tanto sucesso. As mulheres anseiam por se afirmarem como fêmeas, serem admiradas, verem suas formas elogiadas, terem a atenção que às vezes falta em tantas áreas. Não é só uma questão de “aparecer”, é bem mais que isso. Mas creio que meu depoimento fala por si só.

Além disso, o corpo é nosso. E não há nada de vergonhoso nele. Como já disse Madonna, mostrar cabeças explodindo e sangue espirrando na tela do cinema é considerado natural, mas basta aparecer uma mulher nua ou pessoas fazendo amor para escandalizar meio mundo. Vivemos ou não numa sociedade maluca, que considera a violêcia algo natural, mas trata o corpo e a sexualidade como tabus? (Mas isso é assunto para um outro post)


Portfólio de ensaios sensuais do Estúdio Monalisa de Marina: http://estudiomonalisa.com.br/galeria/?670
Texto de Marina sobre nossa relação “fotógrafa-musa”: http://estudiomonalisa.com.br/2011/07/ju-dacoregio-e-tudo-a-que-ela-me-remete/
E no fim das contas, virei musa (mesmo com a maquiagem borrada)! http://www.flickr.com/photos/heresialoira/4978118461/in/set-72157625775315965
Mais uma vez… Nina, Eliza Magrin e Wagner Ribeiro, obrigada por terem ajudado a renovar a chama feminina que há em mim, sem culpa de ser quem eu sou, sem culpa DE SER MULHER.
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24 Comentários on “Fotos, sensualidade e auto-estima (Muito além do #lingerieday)”

  1. #1 Ariane Miranda
    on Jul 30th, 2011 at 00:11

    Incrível o que o poder que as palavras tem… Passei por situação igual, tive até depressão pós parto devido a isso. Tive que aprender a me amar novamente.

    Ter ao nosso lado, em momentos como esse pessoas que nos apoiam e nos colocam pra cima é fundamental, a energia que essas pessoas nos passam nos fortalece e nos ajuda a vencer!

    Ainda quero fazer um ensaio assim!

    Beijo!!!

  2. #2 Juliana Dacoregio
    on Jul 30th, 2011 at 01:44

    Fotos, sensualidade e auto-estima (Muito além do #lingerieday) http://t.co/xjWwU30

  3. #3 Juliana Dacoregio
    on Jul 30th, 2011 at 01:45

    Meninas, fotos sensuais podem fazer muito bem para a auto-estima http://migre.me/5nDeF Sou prova viva disso!

  4. #4 @queirozzzzzzzzz
    on Jul 30th, 2011 at 01:47

    Meninas, fotos sensuais podem fazer muito bem para a auto-estima http://migre.me/5nDeF Sou prova viva disso!

  5. #5 Wladimir Crippa
    on Jul 30th, 2011 at 01:53

    RT @TopsyRT: mulheres, libertem-se! @judacoregio http://t.co/bbaY98J

  6. #6 Robson Freire
    on Jul 30th, 2011 at 01:57

    RT @wladi: RT @TopsyRT: mulheres, libertem-se! @judacoregio http://t.co/bbaY98J

  7. #7 Daniel Loch
    on Jul 30th, 2011 at 02:49

    agora são 01:30h aqui em criciúma-sc do segundo dia do meu 27 ano.

    Tenho nos últimos quatro anos observado sua participação em blogs, twitter principalmente e fico anestesiado com a capacidade que vc tem de usar a ousadia ao extremo sem ser considerada vulgar. É como se soubesse o último centímetro entre a ousadia e a vulgaridade. É algo de alto risco que traz paz e alegria nas palavras que venho lendo nessas últimas 208 semanas…

    Fico feliz por uma menina aqui da minha região estar buscando seu lugar de uma forma profissional e merecedora Brasil a fora… muitas que poderiam estar melhor que você preferem viver um romance como descrito acima por toda a vida…

    Adoro ler, quando lembro, seus recados e informações no twitter, e ao mesmo tempo, aprender sobre a vida com seus ensinamentos e experiências da vida…

    A primeira vez que li seu nome, foi na revista época, e pelo jeito, espero ler você semanalmente em alguma revista de alcance nacional…

    Parabéns pela sua coragem, profissionalismo e doçura no que escreves…

    Grande abraço,

    Daniel Loch

  8. #8 Marina Bitten
    on Jul 30th, 2011 at 05:36

    Meninas, fotos sensuais podem fazer muito bem para a auto-estima http://migre.me/5nDeF Sou prova viva disso!

  9. #9 Marina Bitten
    on Jul 30th, 2011 at 06:01

    Fotos, sensualidade e auto-estima (Muito além do #lingerieday) http://t.co/xjWwU30

  10. #10 Marina Bitten
    on Jul 30th, 2011 at 14:19

    "@JuDacoregio: Meninas, fotos sensuais podem fazer muito bem para a auto-estima http://t.co/RBGfkAU Sou prova viva disso!"

  11. #11 Léo
    on Jul 30th, 2011 at 17:33

    Do caralho!

  12. #12 Juliana Dacoregio
    on Jul 30th, 2011 at 20:22

    RT @wladi: RT @TopsyRT: mulheres, libertem-se! @judacoregio http://t.co/bbaY98J

  13. #13 Helen Araujo
    on Jul 30th, 2011 at 21:34

    Cmo alguém pode fazer isso com outra pessoa cara? Tem gente que parece sentir certo prazer em humilhar os outros, é foda. A mágoa ou a tristeza, não dão a ninguém o direito de querer agredir os outros, mesmo que verbalmente. Acho impossível haver amor onde há desrespeito… Enfim, você é linda e inteligente Ju, esse teu ex é um otário! Bju flor, fique bem!

    P.S:O ensaio ficou lindíssimo! ;)

  14. #14 Bruno Andrade
    on Jul 30th, 2011 at 21:46

    Ei macho, td bem que você primeiro veja as fotos sensuais, mas não deixe de ler o post http://j.mp/onrg55

  15. #15 Juliana Dacoregio
    on Jul 31st, 2011 at 04:02

    Ei macho, td bem que você primeiro veja as fotos sensuais, mas não deixe de ler o post http://j.mp/onrg55

  16. #16 Heresia Loira
    on Aug 1st, 2011 at 04:46

    RT @TopsyRT: Fotos, sensualidade e auto-estima (Muito além do #lingerieday) http://t.co/hOl6ybn

  17. #17 Julia Bobrow
    on Aug 4th, 2011 at 13:50

    …. você é linda… em todos os sentidos.

  18. #18 Juliana Dacoregio
    on Aug 4th, 2011 at 15:16

    @JuliaBobrow um ensaio q foi bem importante em uma época da minha vida. Escrevi sobre todo o contexto envolvido: http://migre.me/5qe07 :)

  19. #19 Luxo Básico
    on Aug 6th, 2011 at 12:57

    Fotos, sensualidade e auto-estima (Muito além do #lingerieday) http://t.co/aypa4Dn (@marinabitten e @estudiomonalisa estão nessa c/ a gente)

  20. #20 Marina Bitten
    on Aug 6th, 2011 at 17:57

    Fotos, sensualidade e auto-estima (Muito além do #lingerieday) http://t.co/aypa4Dn (@marinabitten e @estudiomonalisa estão nessa c/ a gente)

  21. #21 O Pensador Selvagem
    on Aug 8th, 2011 at 22:03

    OPS! > @JuDacoregio: Fotos, sensualidade e auto-estima (muito além do #lingerieday) | http://bit.ly/onrg55

  22. #22 Eu choro, sim. Por que, vai encarar? | Pavablog
    on Aug 9th, 2011 at 10:00

    [...] confie em pessoas que choram no cinema”, já dizia Holden Caulfield e uma besta que estragou meu emocional e que deixou marcas até hoje, viva repetindo. Mas Holden não sabe de nada, muito menos o escroto [...]

  23. #23 Lola
    on Sep 13th, 2011 at 20:57

    FODA. http://t.co/SmrmL1K assino embaixo desse post, @JuDacoregio

  24. #24 Juliana Dacoregio
    on Apr 4th, 2012 at 01:00

    O que representaram aquelas fotos, aquele ensaio, aquele momento: http://t.co/PASXtius

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