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Juliana Dacoregio
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Quarentena

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Ah, rostos…
Suspiro por eles
Sinto falta de vê-los,
de tocá-los,
de que me sejam familiares.

Estou carente de rostos
De faces amigas
Que expressem sentimentos…

e histórias antigas.

Lágrimas e Arco-íris

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Sobre “Um lugar ao sol perto do Vento”:

Eu achei que fosse um livro todo feliz. Um livro que dançasse ao vento como a bailarina da capa; que o sol brilhasse em cada página, não deixando espaço para nenhuma obscuridade. Pois me enganei. Apesar de a autora, Ju Fuzetto, ser uma garota que adoça seus textos e pinta suas histórias com as cores do arco-íris quando lhe convém, ela sabe que doçura demais enjoa e que nem tudo pode ser colorido. Também há preto, branco e cinza em “Um lugar ao sol…” Inclusive, em algumas páginas, o doce de um beijo mistura-se ao salgado de uma lágrima. Ou melhor, muitos beijos e muitas lágrimas. Ju não pesa a mão nas cores, nem nas dores e é habilidosa em utilizar metáforas para expressar sentimentos e fatos. Pensamos estar lendo poesia, mas ela está nos contando uma história. E mesmo sem entregar tudo de bandeja, nós entendemos. Entendemos tudo. Entendemos porque já vivemos, ou conhecemos quem viveu, ou sonhamos viver, ou morremos de medo de viver.

Mas não se trata apenas de lirismo. A autora compartilha experiências que a fizeram (e fazem) crescer, porém sem dar lições de moral e sem pretensão alguma de ser ‘guia’ para alguém. Ela apenas relata sentimentos, inquietações, raivas, paixões, transformações, pensamentos. O que ocorre em seu mundo interno e externo. E nesses relatos nós vamos aprendendo junto. Não seria exagero dizer que este livro contém filosofia. Sim, pois a autora lança perguntas para as quais ela nem sempre tem a resposta e sabe que o propósito não é mesmo responder. É plantar idéias, sementes de sonhos, é abrir as gavetas da emoção que já transbordam. Ela apenas precisa dizer. Ju tem algo a dizer e que bom que foi dito.

Não há idade para se encantar e aprender com suas palavras e vivências. Mas creio que as adolescentes se beneficiariam muito da leitura de “Um lugar ao sol…”. Não querendo colocar “todas no mesmo saco”, até porque é um livro tão diversificado que toca diferentes garotas de diferentes estilos. Porém eu recomendaria fortemente essa leitura para as jovens garotas que estão encontrando seu lugar no mundo e sua voz. Que elas encontrem um lugar ao sol e que seja refrescante: perto do vento.

Para comprar:

Editora Penalux

Valor: R$ 30,00

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Emergindo

Ainda me fascina aquele momento em que o véu da depressão é tirado da frente de meus olhos e deixo de enxergar tudo cinza. Um momento que não sei precisar exatamente qual é, mas de repente, cá estou eu, vendo cores novamente. É tão louco porque antes eu acreditava ver a verdade. O mundo cinza é tão real, tão palpável, é todo de concreto (até o ar que paira ao meu redor é duro como concreto), mas admito que já passei por ele um grande número de vezes para saber que… ele passa. O mundo de concreto passa, o ar de chumbo se desmancha e, aí então, eu posso respirar outra vez. Por isso, quando estou lá, eu espero. Lá: naquele estado, naquele mundo de concreto; presa pelos pés e pelas mãos, sufocando com o ar pesado, caminhando devagar (pois meu corpo também passa a pesar toneladas). É insuportável ver a lua, o Sol e o mar pintados de cinza e todos os sorrisos caindo de podre… Espero tudo isso acabar, como quem espera uma sentença de torturas diárias acabar. Torturas, sim, porque não passo incólume e estoicamente por essa situação. Saber que vai ter fim, não impede meu corpo de sentir o peso de cada passo, não me impede de lamentar a vida que parece se desvanecer antes da hora, não faz com que o ar de chumbo deixe de me grudar na cama, nem faz com que a cama deixe de ser de pedra. Saber que ‘isso passa’ não faz com que a dor passe. Só acende uma luz na hora mais escura.

Talvez por isso eu me maravilhe quando de fato ‘tudo passa’ e eu vejo a luz novamente. Não apenas como um ponto borrado ao longe, mas ao meu redor, iluminando meus passos, acendendo possibilidades. Não há muito o que falar sobre alegria. Eu, ao menos, não vejo o que dizer agora. Alegria a gente vive. Mas sobre a depressão dando passagem à vida, sobre a depressão pegando suas tralhas e indo embora, sobre isso há tanto a se comemorar! Não com medo de que ela volte. Ela pode voltar sim, a qualquer momento (para alguns de nós essa escolha está fora do nosso alcance – aliás, não é uma escolha), mas enquanto ela se foi, vivamos! Com galhardia, com força, com o prazer de enxergar os sorrisos novamente (nos outros e no espelho). Sobretudo vendo as cores, as saudosas cores que tinham nos abandonado. E maravilhando-nos sempre. Fazendo o possível para guardar na memória que ESSE é o mundo verdadeiro, não o mundo de concreto. E, quem sabe, plantar algumas flores em asfaltos alheios.

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Vítimas

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Quem já não ouviu (ou proferiu) algo mais ou menos assim sobre gente que comete a empáfia de reclamar:

“Reclamam, reclamam, reclamam e não fazem nada para mudar! Como são chatas essas pessoas que só sabem reclamar. Merecem mesmo estar “do jeito que estão”: não se mexem, não tomam as rédeas de suas vidas, deixam tudo pra depois. Fazem-se de vítimas! Choronas e reclamonas, cheias de auto-piedade!”

E se o “reclamante” é considerado como o tipo que “reclama de barriga cheia”, aí então, pobre diabo: é dito que não leva a vida com leveza, não dá valor àquilo que tem, esquece que há pessoas passando por problemas bem piores e por aí vai o discurso Poliana-pé-no-saco!

Mas, hey!, peraí, quem lhe deu o direito de condenar a indignação alheia? Há pessoas com fortes motivos para reclamar. Outras poderiam muito bem deixar passar, mas não: elas escolhem esbravejar! E daí? O que lhe incomoda de verdade: que as pessoas reclamem ou que elas consigam dizer o que VOCÊ não consegue?

Ok, ser antipático com o garçom ou outros prestadores de serviço… tsc, tsc… Você não está fazendo isso certo. Mas e a magia de sentar numa roda de amigos para reclamar da vida, do tempo, do chefe ou do século em que vivemos? Sabe o quanto isso pode ser divertido? Pode, e é. As vozes subindo de tom, a indignação tomando forma de frases absolutas, a liberdade de se dizer o que não se pode dizer em nenhum outro lugar.

E você lá sabe mesmo se quem reclama não faz nada para mudar? Sabe se fulano já não tentou até cansar? Quem é você para condenar a auto-piedade alheia? Ora, somos vítimas sim! Vítimas de uma coisa ou de outra somos todos. A diferença é que alguns reconhecem, aceitam e dedicam seu minuto de silêncio e seus lamentos, vez ou outra, a isso. Outros… Bem, outros negam. Você tem inveja de não reconhecer? Você nem sabe direito por que, mas dá raiva ver as lágrimas daqueles que choram por si mesmos, não? É porque você acha que é maior do que isso, que é melhor do que isso, que é mais forte! Hahahahahah… você ainda divide o mundo entre fortes e fracos! Pobrezinho…

Reconhecer sua condição de vítima é libertador. Até porque, a vítima pode muito bem se libertar. Já quem se considera livre, tão livre que é capaz de julgar a dor alheia, pode até estar confortável (nunca vai perceber o seu estado), mas está algemado.

E a vítima, tão julgada, tão condenada, um dia vai embora. Rompe as algemas e segue em frente. Porque ela sempre soube que não seria vítima pra sempre.

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No free walk

Persigo a paz, mas ela não está comigo e eu nem sempre estou com ela. Uma paz que foge, sai correndo quando me vê chegar. Tudo me engole. Engole minha vida, meu sopro de vida, meu ânimo, minhas palavras. Lá fora o menino canta e isso me esmaga. O menino canta sempre a mesma música e, apesar de gostar dela, hoje ela me é insuportável. Olho para a esteira de caminhada (aquela que me propus a usar e não usei) e lá está escrito Free Walk 117. E o sete se transforma num ponto de interrogação. Uma leve fração de segundos e vejo o número transmutado em minha dor. Minha dor é um ponto de interrogação. Até quando? Quantas vezes mais levantarei só para cair? Quantas vezes mais desabarei? Bipolaridade? Não sei. A nova doutora só reiterou o que havia dito anteriormente: borderline. Borderline. Borderline. Living in the edge. Na borda, na linha, sempre na corda bamba. Balançando, balançando, prestes a cair o tempo todo, de um lado para o outro, sem cessar. Náuseas. Incertezas. É possível saber quando estarei pendendo? Quando estarei me segurando com uma só mão porque escorreguei quase que de forma irremediável? Uma montanha russa que dura um dia inteiro, uma semana, um mês, uma vida. Talvez por isso eu sempre tenha considerado montanhas russas uma violência sem tamanho. Todas as vezes em que tentei, me senti violentada. Não preciso de mais uma coisa que me tire o controle do pescoço, que me faça subir sem saber o que virá depois. Pior: esperando a queda. Já vivo esperando a queda, não preciso de um brinquedo para tornar real a instabilidade do meu ser. Ela vem. Não porque eu espere ou deseje. Esse é o papel dela: me fazer cair vertiginosamente, sem ter como parar, apenas segurando o cinto de segurança, paliativo do desespero.

 

Diva no Divã da Depressão

Caro, literalmente caro, doutor,

Será que você pensa em mim tanto quanto penso em você? Será que de repente no meio de alguma alegria sua lhe vêm à mente as palavras que lhe falei e você desaba como eu desabo? Claro que não. Pouco provável que você se lembre de mim enquanto toma seu café da manhã e de repente começa a chorar. Ok, posso até vir à sua lembrança vez ou outra, mas impossível minhas palavras terem causado a você o mínimo do que as suas causaram em mim. Você sabia com que tipo de personalidade estava lidando. Claro que ninguém é um diagnóstico. As pessoas têm suas peculiaridades. Os pacientes têm seus pontos mais frágeis. Não sabia? Bem, então você não seria um bom profissional, o que no fundo eu não acredito. Eu creio que naquela hora, naquele momento, você deixou alguma figura de autoridade ‘ralhar’ comigo usando seus lábios enquanto suas mãos passeavam insistentes por seu cabelo a lá Fábio Jr (que depois daquele dia, perdeu todo o charme, diga-se de passagem).

Eu até tentei avisar, entre lágrimas ainda contidas e incrédulas:

- Você sabe o que está fazendo comigo, né?

- Não! Você está fazendo isso com você mesma!

E continuou o sermão sobre como mantenho meus pais sob o que você JULGOU um regime de terror: porque minha mãe ligava a todo instante a você contando meus problemas, perguntando sobre os medicamentos e, nas horas de emergência, quando acontecia algo grave, ela até ousou uma vez ou outra em ligar de madrugada. Mas por madrugada vamos tomar os horários de por volta da meia-noite ou sete da manhã. Regime de terror…me senti o próprio DOI CODI ou a GESTAPO. Quanto à minha mãe ligar o tempo inteiro: ALELUIA QUE CHEGAMOS NESSA FASE! Porque antes ela tinha vergonha de incomodar os médicos, não sabia que certas atitudes estão ligadas ao diagnósticos que vocês, psiquiatras, nos dão. Afinal, o paciente sai do consultório tomando umas quatro drogas que agem no cérebro, então é porque HÁ UM DIAGNÓSTICO, NÃO É? Mas, quando o psiquiatra se transforma em terapeuta, senta no seu sofazinho e se põe a escutar, basta o paciente num descuido, declarar “sim, sei que minha bipolaridade tem tudo a ver com isso, blabla”, aí, OPA!, aí NÃO SOMOS UM DIAGNÓSTICO.

- Tente pensar por que VOCÊ age assim, Juliana, e não porque uma borderline age assim.

Eu entendo o ponto de vocês. Mas parem de nos tratar como idiotas, nos entupindo de remédios e depois agindo como se aquilo tudo fosse chiclete. Sou a Maria, sou a Juliana, sou a Carolina, sou a borderline, sou a depressiva, sou a melancólica, sou intensa, sou divertida, etc, etc, etc, sabe-se lá se sou bipolar (vocês não se decidem, meus amigos doutores!).

Já fui também Zoloft, Lexapro, Depakote, Rivotril, Efexor, Frontal, Oxcarbazepina, Lamitor.

Hoje sou Cymbalta. Hoje sou Topiramato. Hoje sou Wellbutrin. Hoje sou Lexotan. (amigos leitores, com todo o respeito AMO vocês, mas dispenso conselhos sobre a minha medicação atual, passada ou futura, ok?! Terapias alternativas, shiatsu, meditação, tudo isso podem me indicar que ouvirei com respeito, mas sobre medicação não, tá?)

Pois bem, minha mãe telefonava para você sim, doutor, porque olha, 500 reais por semana, acho que ela tem direito de telefonar se a filha dela estiver se debulhando em lágrimas sem motivo ou com um medo inexplicável de sair de casa.

Então naquele dia você resolveu bancar o disciplinador. Disse que mesmo com TUDO O que eu fazia, eu ganhava o que quisesse dos meus pais. OI? Eu só sofria. Eu não saía de casa. Eu não fazia nada. E minhas ações eram REAÇÕES da minha dor interna. Dor interna essa que naquele final de tarde você não estava com vontade de tratar. Sim, provavelmente eu ganho TUDO dos meus pais porque eu os penduro no pau-de-arara até eles me darem. Caro Sinhô Seu Dotô, meus pais me dão o que eles querem e podem dar. E dariam mesmo se eu fosse, sei lá, a Beyoncé! Você afirmou algo DESCONHECENDO TOTALMENTE a dinâmica da minha casa.

Falando em desconhecer a dinâmica da minha casa, quem foi mesmo que disse que seria muito difícil eu estabelecer um contato mais aberto com meu pai? Que eu deveria parar de tentar, pois isso só me causaria frustração?

E quando eu, tão desesperançada, tão ferida e tendo ferido tanto a quem amo, falei que do jeito que eu ia era mais fácil estar a sete palmos do chão do que realizando meu sonho em algum lugar, você concordou. Concordou com palavras, com a cabeça, com o gestual inteiro. Concordou com o corpo inteiro que seria mais fácil eu estar a sete palmos do chão.

Bom, eu não estou. Mesmo assim você disse que meu comportamento estava sendo essencialmente suicida e que não poderia mais me tratar. (Gente, juro pra vocês, sempre fui uma paciente boazinha e ponderada, nunca apontei uma faca pra nenhum terapeuta ou coisa parecida!) É… Você, caro psiquiatra tão recomendado na nossa cidade por ser um bom profissional (mas, vou lhe contar um segredo: também por ser bonitinho), você disse que NÃO PODERIA MAIS ME TRATAR POIS EU ESTAVA TENDO UM COMPORTAMENTO SUICIDA. Eu não sei quantas vezes terei que repetir isso para entrar na minha cabeça. Imagina o meu espanto: para onde vão as pessoas suicidas? Para o psiquiatra! Imagina o meu espanto: você não reconheceu que eu estava fazendo alarde, mesmo que inconscientemente para chamar a atenção, e que NÃO, EU NÃO ME MATARIA!

NÃO ME MATARIA TENDO PUBLICADO UM ÚNICO LIVRO, NÉ? NÃO PRA MATAR MINHA MÃE JUNTO! NÃO POR UM MONTE DE MOTIVOS.

Às vezes a gente arranha as paredes, doutor, mas a gente já sabe que de dentro delas não sai sangue. Me matar e perder a chance de estar cuidando da gatinha que apareceu no meu portão? Me matar e perder a oportunidade de ouvir Ray Charles cantando Mess Around, como estou fazendo agora? Você só me conhecia há 2 meses para prever que eu iria tirar minha vida ou para achar que ameaçar não mais me tratar iria surtir algum efeito positivo.

Como se não bastasse, você foi magistral ao afirmar que eu deveria sentir culpa pelo que eu fiz (deixo claro aqui que não matei, não roubei, não sequestrei, não torturei). Um terapeuta, um TERAPEUTA, MEU DEUS, DIZENDO:

- SIM, VOCÊ DEVE SENTIR CULPA!

Completando com:

- Você precisa se arrepender.

Erro duplo já que a culpa já é um dos piores monstros que carrego e ouvir alguém em quem eu confio, com quem vou buscar ajuda sem censuras e julgamentos, afirmando para eu me culpar foi AARRGGGHHH (como posso colocar em palavras?) BIZARRO. Em segundo lugar culpa e arrependimento são sentimentos tão distintos…

Segue aqui dois textos bem legais sobre a culpa e o sentimento de auto-punição a que ela pode levar:

Auto-estima: a diferença entre culpa e responsabilidade

Sentimento de culpa leva à auto-punição

A principal e mais grave punição para quem cometeu uma culpa está em sentir-se culpado.

(Sêneca)

Já ARREPENDIMENTO:

Do grego μεταμέλεια – Metanóia (Meta=Mudança, Nóia=Mente), arrependimento quer dizer Mudança de Mentalidade.

Na origem da palavra, arrependimento quer dizer mudança de atitude, ou seja, atitude contrária, ou oposta, àquela tomada anteriormente.

Nem precisa ilustrar muito a diferença entre os dois né?

Mas algo que eu não posso ilustrar, nem descrever é a dor de se sentir traída por uma pessoa que estava ali para entender TUDO, TU-DO (tudo bem, é um profissional). E, claro, se houvesse alguma atitude mais drástica a ser tomada depois, que fosse tomada, mas depois.

Não dá pra ilustrar a dor no peito de quando aquele seu amigo/confessor, aquela pessoa em quem você confia, muda suas feições. É visível a mudança e a dor é física, daquelas que a mocinha de novela mexicano faz um OH! e prende a respiração, sabem? É, eles não inventaram isso aí do nada! Sabe o que é mais humilhante? Não são as coisas super íntimas num sentido sexual ou sentimental que a gente conta, não são as coisas “adultas”. Foi aquela sua palavra boba, aquela sua invejinha, aquela obsessão no “jeito” do outro… São aquelas coisas do tipo “aí fulano disse assim, aí eu peguei e fiz assim, aí eu fiz de propósito mesmo só pra provocar, aí eu vou contar tudo mesmo e não quero nem saber”. São as criancices confiadas aos doutores da mente? Alma? Psiquê?

Fiquei pensando se o tempo todo, nas outras sessões, você estava me julgando uma patricinha mimada? Uma riquinha? Uma intelectual da depressão? Uma diva obcecada? Uma aterrorizadora de pais? Hehehehe Essa foi a melhor.

Doeu pra caramba. Agora chega. Ainda dói um pouco, mas eu tento não pensar.

E por que o desabafo tinha que ser por aqui, na frente de todo mundo? Porque sim, uai! Estamos na década de 10 do século XXI. Se posso tornar uma coisa pública, por que vou mantê-la privada?

 

 

Não use protetor-solar

O mundo não precisa ser sempre igual. Seus dias não precisam passar de repente. Pegue uma fórmula pré-fabricada, testada e aprovada e rasgue-a em mil pedacinhos. Deixe pra qualquer manhã o que não precisa fazer hoje. E guarde um mês inteiro para não cair em tentação, Amém.

Sorria ao lembrar que ninguém aqui é permanente. Não imagine as pessoas nuas para perder a timidez ao falar em público. Imagine-as como macacos. A rima é muito boa, mas resista a usar timidez e siamês na mesma frase.

Misture seus poemas preferidos e coma cebolas se você não gosta (méritos a uma brava louca amiga que se sentou com um pote de cebolas e as devorou TO-DAS, mesmo abominando-as).

Não seja sociável, não seja misógino, não seja amável, não seja rude. Seja aquele que prova todas as roupas da loja e não leva nada. Quando comprar roupas, NUNCA as experimente. Dê tudo que está sobrando, inclusive seu tempo.

Saiba com quais músicas se identifica e por que. Mas não seja chato falando sobre como cada verso poderia ter sido inspirado em sua vida, principalmente numa mesa de bar. Nunca diga que sua vida daria um livro. TODA vida daria um livro. Mas, se houver justiça divina nesse mundo, aqueles que dizem que sua vida dá um livro, viverão o resto da existência num tédio enlouquecedor.

Chape-se de sono. É só não dormir, mesmo quase não aguentando. Logo vai estar rindo loucamente.

Não esqueça que ninguém quer ouvir sobre as suas rugas. Sobretudo, PELO AMOR DO BOM DEUS, se o interlocutor for mais velho. Ah! Também não querem ouvir sobre a sua gordura, seja você gorda ou magra.

Não perca seu tempo lendo a revista Caras. Faça listinhas como essa. Nem que seja para jogá-las fora depois ou deixá-las dentro das revistas de sala de espera de consultórios (psiquiátricos, de preferência).

Úlcera

foto: Marina Bitten

Não pedi perdão. Não nego a vergonha. Não nego a culpa, o medo do exagero, sempre ele, o medo do exagero. Mas eu não pedi clemência. Ofereceram-me de bom grado, o que a princípio me pareceu. Seria uma grande prova passar por cima de tamanhos insultos. Disseram que nada levariam em consideração. Nada do jorro de vômito das minhas palavras apodrecidas. Que nada daquilo era válido, que tudo era perdoado, uma borracha em cima passada. Eu nada disso pedi. Nem borracha, nem clemência, nem ouvidos moucos, nem perdão. Mas como sou aquela que espera além das expectativas, esperei. A recepção. Todos reunidos. Um dia. A sala. Cheia. O abraço. O começar do zero, me disseram. Me disseram? Disseram-me? Aquela não é quem conhecemos. Claro que não. Eles não conhecem nem aquela, nem esta, nem a que bateu, nem a que apanhou, nem a que dançou, nem a que brilhou os olhos. Eles não conhecem at all. Mas por que? Por que dizer “passamos por cima de tudo aquilo”, “não deixamos de amá-la”? Como amas ao próximo como a ti mesmo? Ignoras-te? É assim que te amas? Por que dei-lhe a mão, se nada se passaria depois? Algumas coisas o tempo não cura, algumas coisas o tempo apodrece. Eu não pedi. Mas esperei. Esperei que me abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta.

Operário em Construção

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as asas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato como podia
Um operário em construção
Compreender porque um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento

Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse eventualmente
Um operário em construcão.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma subita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão
Era ele quem fazia
Ele, um humilde operário
Um operário em construção.
Olhou em torno: a gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Nao sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua propria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro dessa compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele nao cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Excercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edificio em construção
Que sempre dizia “sim”
Começou a dizer “não”
E aprendeu a notar coisas
A que nao dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uisque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução

Como era de se esperar
As bocas da delação
Comecaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação.
- “Convençam-no” do contrário
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isto sorria.

Dia seguinte o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu por destinado
Sua primeira agressão
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras seguiram
Muitas outras seguirão
Porém, por imprescindível
Ao edificio em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo contrário
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher
Portanto, tudo o que ver
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse e fitou o operário
Que olhava e refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria
O operário via casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! – gritou o patrão
Nao vês o que te dou eu?
- Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martirios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construido
O operário em construção

(Vinicius de Moraes)

Há uma vaga mágoa no meu coração

E quando a oração deixa uma tristeza? Cheguei em casa alegre. Vestido novo – há muito tempo não saía de casa tão bem vestida – cabelos com cachos do jeito que eu gosto, belos cachos (me desculpem, mas vou ter que usar a expressão) cachos formando uma cascata de ouro em meus cabelos; a gatinha tão querida, minha nova e amada paixão: cheirosinha, de banho tomado, pelo escovado, perfumada, laço no pescoço (alaranjado, minha cor preferida), strass da mesma cor colado acima do focinho… Veio dócil no carro, bem postada no meu colo sem reclamar. Parecia que eu estava indo rumo há muitas possibilidades, sabe? Criança de vestido novo, nota 10 na prova, brinquedo comprado com seu próprio dinheiro.

Mas algo já estava lá esperando por mim. Estavam esperando por mim. E como eu sabia que ela seria recebida se apenas determinada pessoa estivesse, com festinhas, brincadeiras, bobeiras, não foi assim que aconteceu. Nem todos quiseram cheirá-la. Como podem todos não quererem cheirar uma gatinha tão linda? E o meu peito se apertou. Foi pedido que eu a levasse “pra lá”. Mais peito apertado. Ninguém viu meus cachos, ninguém viu meu vestido, ninguém viu que depois de tanto tempo eu estava de saltos e não arrastando chinelos como uma doente. Estavam ali por um compromisso que ultrapassa essas coisas; pensando além do material. Mas essas coisas materiais marcaram vitórias da alma e do espírito; vitórias também do ânimo, do compromisso e da responsabilidade sobre a apatia. Acontecimentos que marcam “dias sim”.

E por que essa sensação de pesar depois da oração? Depois de algo tão perfeito e especial que só uma oração pode ser. Uma tristeza lânguida me tomou. Talvez porque ali naquela roda eu me lembrei de tudo que se foi; de tudo que eu já não tenho mais; da mão ao meu lado que tanto eu lutei para que fosse parte de mim, e de repente, já nem posso olhar nos olhos de seu dono.

Talvez porque eu não compreenda e nunca vou compreender e saiba que só sobrenaturalmente é possível compreender esse Deus que não faz acepção de pessoas. O pregador que estava ali, conduzindo a oração, é tão filhinho querido, tão amado; pelo “olfato” de Deus ele é tão cheirosinho (como o perfume que maravilhou-me em minha gata), quanto o Rogério, que me pediu trocados para cachaça na Rua Augusta. E me apresentou sua mulher. Tive vontade de abençoá-los ali, mas não o fiz. Apenas vi nos olhos dele uma força e falei. Falei que ele era forte. Deve ter me achado mais maluco que ele. Até porque ele deve passar um monte de perrengue, morar no cafundó do Judas, e pensar “tá bom branquela, fala uma novidade agora!”

Mas quanto à oração que me deixou tão cabisbaixa, é claro que não rejeito o que foi pedido, buscado, declarado. O que, em silêncio, invoquei. Talvez eu já não esteja mais acostumada a esse peso. Talvez eu tenha pesos demais. “Minha metralhadora cheia de mágoas”.

Só sei que a gata não incomodou nem um pouco naqueles minutos.  E agora me rodeia, brincando de um jeito engraçado. Não me canso de olhá-la. Vou terminar de escrever e cheirá-la muito. Será que Deus é apaixonado assim pela gente?

Acho que a tristeza passou. É. Eu acho que sim.

Título: extraído do poema Paira à tona d´água, de Fernando Pessoa