Eu quis cantar
Minha canção iluminada de sol
Soltei os panos sobre os mastros no ar
Soltei os tigres e os leões nos quintais
Mas as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer
Mandei fazer
De puro aço luminoso um punhal
Para matar o meu amor e matei
Às cinco horas na avenida central
Mas as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer
(Panis et Circenses – Mutantes)
Ligo a tv durante o café e vejo um jovem ator, do qual não lembro o nome, chegar numa sala grande, onde estão alguns jovens reunidos ao redor de mesas comuns, cadeiras e mesas de jogos. Claramente é a área recreativa de uma clínica psiquiátrica. Parece um documentário, mas é um filme. Mas tudo que começo a assistir é muito real. Todas aquelas dores e confusões, todos aqueles segredos e revoltas contidas: tudo muito real. O ator que chega na tal sala interpreta Lyle, um jovem cheio de raiva. Ele vai silenciosamente até uma mesa de pebolim e de repente, com muita fúria, ele a vira e derruba. Os outros jovens no recinto se agitam e um deles grita animado: A REVOLTA DO PEBOLIM! No mesmo instante lembro da frase “Viraram apenas uma mesa simbólica”, em que Allen Ginsberg faz referência ao episódio em que seu colega Solomon, escritor e poeta da geração beatnik, virou uma mesa de pingue-pongue num hospício, num “acesso de raiva anti-autoritária”!
Acho linda a forma como Ginsberg se refere ao surto de Solomon: virar uma mesa simbólica. Porque são tantas mesas reais que queremos virar. As mesas do tédio, da mentira, da dissimulação, da falsidade, do auto-ódio, das prisões sociais e familiares, dos padrões bonitinhos e escrotos que nos ensinaram.
Neste 2012 que passou virei uma boa quantidade de mesas simbólicas. Eu as tenho virado a vida inteira, mas elas estão cada vez maiores e fazendo mais barulho. Continuam simbólicas porém. E eu tenho uma ânsia absurda de mostrar alguma coisa a algumas pessoas, por isso as viro. E porque tenho gritos entalados na garganta, então as viro. Elas têm feito bastante estardalhaço na hora da virada e em alguns momentos depois. As pessoas até parecem que vão se transformar um pouco, o mundo parece que vai se mexer. Fica apenas a promessa. Porque, na verdade, quem construiu uma cova de silêncio e aparências ao seu redor não quer o barulho das mesas virando, nem os gritos de raiva e libertação que vem com elas. As pessoas não querem se assustar.
Mais do que não quererem se assustar, elas não querem se transformar, nem parar para pensar no assunto por mais que você tenha razão. Mas não é por isso que vou dizer que você não deve virar suas mesas, não. Ah, não! VIRE! VIRE MESMO! VIRE TUDO! Faça a sua pequena anarquia, questione se você apenas responde, não explique nada se lhe exigirem, desabafe tudo se ninguém lhe perguntar, desmonte os quebra-cabeças, quebre os porta-retratos e os sorrisos falsos, pinte as paredes com o que lhe afronta, suba na cadeira e depois… Bem, depois esqueça. Ou como diria Yoko, ‘faça um sanduíche de atum e coma’. – mas não na sala de jantar.
