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Frases da Libélula

“Há pessoas que são assassinadas quando forçadas a existir.”

“Aproximaram-se cada vez mais. Suas personalidades combinavam. Até que um dia ambas assumiram a responsabilidade de ser uma a melhor amiga da outra. Fio tivera outros amigos antes de Zora, pois todo mundo tem amigos. Tinha também uma torradeira; nem todo mundo tem uma torradeira.”

“Não podemos nos defender da admiração, não podemos desconfiar de quem gosta de nós, é uma guerra da qual sairemos sempre perdedores.”

“A admiração embute um canibalismo sublimado.”

“Ser chamado pelo nome por um estranho transmite sempre a sensação de não se pertencer mais a si mesmo.”

“Somente aqueles que sempre dispuseram de tudo é que sonham com uma vida aventureira e excepcional em que tudo se escreve com maiúsculas.”

“Ela carregava a energia de todos os relâmpagos que ela sabia possuir dentro de si, e, sem nenhuma dúvida, estava convencida de que participava da tempestade, em pé de igualdade com as grandes nuvens escuras.”

Estas são algumas das muitas frases marcantes do romance A Libélula de seus Oito Anos, de autoria do francês, Martin Page. Minha opinião e minhas costumeiras epifanias (viagens) sobre o livro estão lá no Amálgama, portanto acessem, não fiquem só aqui dando Ctrl + C nas frases legais.

Vai lá => Atraída pela capa, fisgada pela história

 

 


Revelando e sendo revelada

Fotografar e posar é como o sexo: quanto mais intimidade, mais entrosamento, quanto mais ambos confiam um no outro, mais prazeroso e divertido é o processo (ninguém fica com medo de propor algo diferente); e, muito importante, quão maior for a admiração recíproca mais ambos se doarão para que tudo seja maravilhoso e farão isso naturalmente. E, no final, os dois estão suados, cansados, doloridos e quem sabe até sujos.

Amalgamados 

O fotógrafo usa seus modelos e ora é usado por eles. É um jogo de dominação, voyeurismo e exibição em que o fotografado pode mostrar muito mais do que expressões, mais do que o corpo, mas sim seus desejos, seu medo, até seu horror. Por outro lado, ingênuo o fotógrafo que pensa que está apenas dirigindo poses e dando orientações. Ele está cochichando seus segredos para a câmera e para o ser fotografado. A objetiva captando todo o subjetivo de duas almas expostas.  
E num recente choque de almas, com minha amiga e fotógrafa Marina, nasceram vários registros. Um deles em especial causou epifanias, debates sérios e depois interpretações cômicas (porém não pouco verdadeiras). O que me fez acabar “cometendo” um poema. Quem fotografou, quem posou e quem escreveu é fácil de dizer. Mas quem está de fato no poema e quem se revela na foto, é outra história.
foto: Marina Bitten

Protege o corpo – tão SEU
Com teorias variadas – inteligentes – porém compradas
Cerca-se de arte para aplacar a solidão
Notas para o silêncio
Letras para a inquietação
Acha que pode cancelar os desejos
E forçar-se à exaustão
Mas o olhar já não se sustenta ali – vaga em pontos de luz
Então… Oh! 
Esconde seus dogmas sem perceber
Chega de ideias! 
Seu corpo é enciclopédia; tratado; arquivo vivo, mutante, pulsante;
Tese de Mestrado.

(Juliana Dacoregio)

Adeus tristeza

Imagem: Malvados

Texto ao acaso

Todos os dias entramos em contato com pessoas que nos dizem que tudo é uma questão de escolha. “Está em suas mãos o poder de mudar a sua vida”, “Você é fruto de suas escolhas”, “A vida é o que você faz dela” e por aí segue. Nenhuma inverdade. Mas nenhuma verdade absoluta. Há tantos pormenores, detalhes, acasos, golpes de sorte, de azar, do destino ou daquilo que rege esse mundo vagabundo em que vivemos, que é uma ingenuidade pensar que detemos o poder sobre nosso rumo. Existem aqueles momentos em que quando você vê, já foi! E uma série de acontecimentos se desenrola fora de seu controle, para o bem ou para o mal. Às vezes o bolo desanda, mesmo com todos os ingredientes corretos e modo de preparo seguido à risca. Às vezes você pode se irritar de nunca acertar o ponto da massa, resolver comê-la crua e criar uma nova e deliciosa sobremesa. Ou ter uma intoxicação alimentar, ir parar no hospital, receber uma injeção de Plasil (sem ter tempo para dizer que você é alérgico, afinal não está pensando nisso enquanto vomita as tripas) e morrer. O que quero dizer é que somos fruto de tantas coisas além de nossas escolhas… Esse texto, por exemplo. Esse texto desandou. E você o está comendo cru.

Difícil

“Pensando nas estrelas noite após noite começo a perceber que “As estrelas são palavras” e todos os incontáveis mundos da via Láctea são palavras, e esse mundo também o é. E percebo que não importa onde eu esteja, seja em um quartinho repleto de ideias ou nesse universo infinito de estrelas e montanhas, tudo está na minha mente. Não há necessidade de solidão. Por isso, ame a vida pelo que ela é e não forme ideias preconcebidas de espécie alguma em sua mente.”

Jack Kerouac, Cenas de Nova York e outras viagens, conto “Sozinho no topo da montanha

Anarquia Particular

Eu quis cantar
Minha canção iluminada de sol
Soltei os panos sobre os mastros no ar
Soltei os tigres e os leões nos quintais
Mas as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer

Mandei fazer
De puro aço luminoso um punhal
Para matar o meu amor e matei
Às cinco horas na avenida central
Mas as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer

(Panis et Circenses – Mutantes)

Ligo a tv durante o café e vejo um jovem ator, do qual não lembro o nome, chegar numa sala grande, onde estão alguns jovens reunidos ao redor de mesas comuns, cadeiras e mesas de jogos. Claramente é a área recreativa de uma clínica psiquiátrica. Parece um documentário, mas é um filme. Mas tudo que começo a assistir é muito real. Todas aquelas dores e confusões, todos aqueles segredos e revoltas contidas: tudo muito real. O ator que chega na tal sala interpreta Lyle, um jovem cheio de raiva. Ele vai silenciosamente até uma mesa de pebolim e de repente, com muita fúria, ele a vira e derruba. Os outros jovens no recinto se agitam e um deles grita animado: A REVOLTA DO PEBOLIM! No mesmo instante lembro da frase “Viraram apenas uma mesa simbólica”, em que Allen Ginsberg faz referência ao episódio em que seu colega Solomon, escritor e poeta da geração beatnik, virou uma mesa de pingue-pongue num hospício, num “acesso de raiva anti-autoritária”!

Acho linda a forma como Ginsberg se refere ao surto de Solomon: virar uma mesa simbólica. Porque são tantas mesas reais que queremos virar. As mesas do tédio, da mentira, da dissimulação, da falsidade, do auto-ódio, das prisões sociais e familiares, dos padrões bonitinhos e escrotos que nos ensinaram.

Neste 2012 que passou virei uma boa quantidade de mesas simbólicas. Eu as tenho virado a vida inteira, mas elas estão cada vez maiores e fazendo mais barulho. Continuam simbólicas porém. E eu tenho uma ânsia absurda de mostrar alguma coisa a algumas pessoas, por isso as viro. E porque tenho gritos entalados na garganta, então as viro. Elas têm feito bastante estardalhaço na hora da virada e em alguns momentos depois. As pessoas até parecem que vão se transformar um pouco, o mundo parece que vai se mexer. Fica apenas a promessa. Porque, na verdade, quem construiu uma cova de silêncio e aparências ao seu redor não quer o barulho das mesas virando, nem os gritos de raiva e libertação que vem com elas. As pessoas não querem se assustar.

Mais do que não quererem se assustar, elas não querem se transformar, nem parar para pensar no assunto por mais que você tenha razão. Mas não é por isso que vou dizer que você não deve virar suas mesas, não. Ah, não! VIRE! VIRE MESMO! VIRE TUDO! Faça a sua pequena anarquia, questione se você apenas responde, não explique nada se lhe exigirem, desabafe tudo se ninguém lhe perguntar, desmonte os quebra-cabeças, quebre os porta-retratos e os sorrisos falsos, pinte as paredes com o que lhe afronta, suba na cadeira e depois… Bem, depois esqueça. Ou como diria Yoko, ‘faça um sanduíche de atum e coma’. – mas não na sala de jantar.

Welcome back Myself

EU NÃO ACREDITO! EU NÃO ACREDITO! EU NÃO ACREDITO! Mas é verdade! O buraco negro já não me envolve mais. Os pensamentos de inutilidade, a auto-destruição sempre à espreita, a exaustão física e mental, a angústia insuportável, a sensação de ter um monstro dentro da barriga… NÃO ESTÃO MAIS AQUI!

Acabo de me olhar no espelho e meus olhos estão brilhando. A vida não parece mais sem sentido. Não que eu tenha encontrado um sentido profundo para ela, mas estou positivamente atônita e talvez até feliz(!) por não estar mais o tempo inteiro envolvida em pensamentos mórbidos, sentimentos doentios e um cansaço de viver.

 E de repente eu me pego tomando longos e prazerosos banhos, com óleos e esfoliação! Eu que mal conseguia juntar forças e ânimo para tomar uma ducha rápida, que cheguei a ter de tomar banho sentada com a ajuda de minha mãe, e que, simplesmente, não suportava o “trabalho” de me secar (já que tomar banho era um esforço grande demais, não sobrava forças para me secar, então a técnica era jogar uma toalha em cima da cama e me deitar molhada em cima dela esperando secar ao natural) – E ISSO POR MESES – de repente ontem eu estava tomando um banho lindo, maravilhoso, com vontade e sem sentir que aquilo representasse um esforço monstruoso!!! Parece pouco? Se parece, é porque você não faz ideia do que é uma depressão profunda, nem nunca esteve perto de quem passou por isso.

Vestir-me já não é oneroso, sair à rua não me causou pavor ou frios na barriga, não estou mais sentindo nojo de mim e consigo ouvir música novamente (nos momentos mais escabrosos da depressão ouvir qualquer tipo de música só me fazia lembrar o quanto o meu “eu verdadeiro” gosta de música, mas que aquele “eu deprimido” não conseguia sentir nada com a música, o que só me fazia ficar pior, pensando ‘será que algum dia eu vou sentir algo novamente?’ Mas EI! estou sentindo, estou sentindo o prazer de curtir um som)

Então eu precisava registrar esse momento. Não estou nada inspirada, nem lírica e as palavras e metáforas estão me fugindo, mas eu não podia deixar passar. Não tenho motivo nenhum em especial para estar feliz, mas ao mesmo tempo tenho esse grande motivo! Parece que meu “eu” está voltando. Eu, meio quebrada, meio confusa e maluca, mas EU. Eu sorrindo novamente, eu saindo de casa sem medo novamente, eu penteando os cabelos novamente, eu gostando de mim um pouquinho novamente, eu fazendo planos novamente.

PS.: Estou em tratamento, com medicação e terapia e meu psiquiatra até agora está sendo bem legal pois se engajou em buscar uma tábua de salvação para mim, sem ficar esperando muito que algum medicamento fizesse efeito quando se mostrava ineficaz. Acho que estamos no caminho certo. Temos que estar! A luta continua!

Traqueostomia

Eu procuro uma forma de gritar. Uma forma única e eficaz, de um jeito que todos ouçam e entendam. Porque por dentro eu estou sempre gritando. Eu nasci pro grito, pra ganhar as coisas no berro, na hora, pra ser compreendida sem muita explicação, mas o mundo inteiro não entendeu e eu fiquei como uma muda emitindo sons guturais. Eu procuro o grito definitivo, aquele que vai me aliviar pra sempre, desentalar a pedra da minha garganta. Só sei discutir gritando, por puro medo de não ser compreendida, por uma necessidade obsessiva de ser abraçada e não contestada.

Mas eu sei que nenhum grito vai te fazer falar. Nem voltar o tempo, nem mudar nada. Só vai arranhar minha garganta. Mas não tem problema, acho que também nasci para ter a garganta arranhada.

Retrospectiva 2012, pero no mucho

Não pretendia de forma alguma fazer uma “retrospectiva 2012″. Se houve algo que este ano que passou me ensinou foi: SEMPRE PODE PIORAR. Mas não digo isso com remorsos de não ter dado mais valor a 2011 ou a qualquer outro ano que passou. Os otimistas dizem que tudo é um aprendizado, que sofremos para talvez ensinar algo de bom aos outros e que “tudo é experiência”. Sim, experiência de se fuder e comer o pão que o diabo amassou. Ok. Mas nem tudo são espinhos. Há também ervas daninhas, frutos venenosos e capim.

Pois eis que “retrospectei” meu ano lá no facebook. Ia ser só uma frase, mas virou isso:

2012 foi o ano em que eu beijei o Arco do Triunfo e andei nas ruas da Paris, por vezes chuvosa, por vezes ensolarada. 2012 levou embora ilusões infantis. Em 2012 eu quase caí de avião. Dormi em salas de embarque e na espera da bagagem. 2012 me levou a outros médicos, me desesperançou, me fez dar um foda-se para a medicina e tentar fazer do meu jeito (porque os remédios normais nem sempre amenizam a pressão). Fiz as pazes com a terapia e com a psiquiatria aos 45 do segundo tempo. Quase perdi minha mãe num trem para Versailles, fui tratada como diva no Moulin Rouge e como lixo no Charles de Gaulle. Conversei com a lua e ela me respondeu. 2012 foi assustador, aterrorizante em me mostrar a pior face de minha depressão até então. Experimentei Deus novamente. Quase me lancei demais no lugar errado. Decidi que quero transcendência, mas não dogmas. Em 2012 fiz festa como uma garota de High School em Fortaleza e me encontrei, desencontrei, chorei e ri no Rio. Perdi MONTES de amigos. Aprofundei uma ou duas amizades, ganhei mais uma ou duas. Disse incontáveis vezes “eu não aguento mais!”, mas aguentei. Quebrei paradigmas e adquiri cicatrizes reais e metafóricas. 2012 foi um tour de force! Em 2012 eu beijei o Arco do Triunfo.

Ponte quebrada

“Just a perfect day
you made me forget myself
I thought I was someone else
someone good”

Eu me arrumava e me perfumava. Tentava ser o melhor de mim. Para que não me vissem triste, não me vissem chorando. Fazia o possível para aproveitar aqueles momentos, para entrar em seus mundos e não ficar apenas observando de fora. E com ela eu ri e dancei até cansar. Com eles eu me fiz presente, colei seus desenhos na parede. Eram pequenos oásis no meio do deserto. Às vezes me entregava inteira, mesmo sem saber direito como, tentava ser criança. Buscando calar minha constante dispersão e estar ali: corpo, alma e coração. E mesmo quando não conseguia totalmente, escondia minha angústia, dava as mãos e o que mais eu conseguisse dar. Meu tempo, meus conselhos bobos, meu sorriso, meu amor. Tentava ser o melhor de mim. Mas meu melhor não foi o suficiente. Se um erro suplantou os acertos, devo aceitar e seguir em frente. Fazer de conta que nada mais sinto, que de repente me tornei pedra, usar meu cinismo para não estagnar. Porque eu tentei ser o melhor de mim. Mas para alguém não bastou. Tudo bem, um dia… Ah, o mundo gira. Não é sentimento de vingança, é só uma certeza. Um dia quem afastou também será afastado. Porque essa é a ordem da vida. Um dia quem nada fez porque não quis, nada fará porque não haverá o que fazer. E se for desejo de ver sofrer quem me fez sofrer, tudo bem: eu me perdôo. Sou humana, feita de carne, osso, lágrimas, hormônios, sangue. Muito sangue. Não sou dividida entre corpo e espírito. Não culparei minha carne como se ela não fizesse parte de mim. Muito menos, culparei algo sobrenatural exterior a mim. Tudo que há de extraordinário está aqui. O natural já é suficientemente sobrenatural. E era natural que eu sentisse a dor da perda, a facada da frieza, o eco da distância. “E tudo isso me pesa como uma condenação ao degredo”. Mas me dizem para deixar para lá e dessa vez vou aceitar o conselho. O tempo há de se encarregar. E se ele não se encarregar, fica assim por isso mesmo. Já consigo domar a revolta e incorporar a frieza.
É que hoje sorrisos antigos me fizeram chorar.